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SALCAJÁ, Guatemala – Familiares de Héctor Bocel, um dos oito policiais mortos por homens armados em uma delegacia de Salcajá, no departamento de Quetzaltenango, choram do lado de fora do necrotério, em 14 de junho. Os homens armados também sequestraram um chefe de polícia. (AFP)

SALCAJÁ, Guatemala – Familiares de Héctor Bocel, um dos oito policiais mortos por homens armados em uma delegacia de Salcajá, no departamento de Quetzaltenango, choram do lado de fora do necrotério, em 14 de junho. Os homens armados também sequestraram um chefe de polícia. (AFP)

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Irã rejeita proposta de Lula de dar asilo à acusada de adultério

Infidelidade feminina é considerada crime punível com a pena de morte pela lei islâmica do Irã.

Por Nelza Oliveira para Infosurhoy.com—06/08/2010


							Exilados iranianos em Berlim, na Alemanha, protestam contram o possível apedrejamento de Sakineh Mohammadi Ashtiani sob a alegação de ter cometido adultério no Irã. (Sean Gallup/Getty Images)

Exilados iranianos em Berlim, na Alemanha, protestam contram o possível apedrejamento de Sakineh Mohammadi Ashtiani sob a alegação de ter cometido adultério no Irã. (Sean Gallup/Getty Images)

RIO DE JANEIRO, Brasil – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse em 31 de julho que poderia dar asilo a Sakineh Mohammadi Ashtiani, mulher iraniana condenada à morte por adultério.

A infidelidade feminina é considerada crime punível com a pena de morte pela lei islâmica do Irã, desde a Revolução de 1979.

“Se minha amizade e o respeito que tenho pelo presidente do Irã e pelo povo iraniano valerem de algo, se esta mulher causa mal-estar, poderíamos recebê-la no Brasil", disse Lula durante um comício da campanha eleitoral da candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff, em Curitiba.

Porém, dias antes das declarações em Curitiba, Lula afirmou que não se envolveria na controvérsia acerca de Ashtiani e rejeitou os apelos das organizações de direitos humanos de usar suas relações de amizade com Ahmadinejad para salvar a vida da mulher.

“Juridicamente falando, esse convite não tem fundamento", diz Gian Carlos Moreira Ferreira, professor de Relações Internacionais na Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio de Janeiro (ESPM-RJ). “Não é um caso que se preste a asilo político. O asilo político é para quem está sendo perseguido ou condenado em seu próprio país por crimes políticos, questões de sexo ou raça, ou por crenças religiosas. O adultério é tratado como crime comum no Irã.”


							Lula e o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, durante a cerimônia de recepção ao presidente brasileiro em Teerã, Irã, em 16 de maio de 2010. (Atta Kenare/AFP/Getty Images)

Lula e o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, durante a cerimônia de recepção ao presidente brasileiro em Teerã, Irã, em 16 de maio de 2010. (Atta Kenare/AFP/Getty Images)

Segundo Ferreira, o convite de Lula poderia ser uma simples tentativa de amenizar possíveis críticas a suas relações de amizade com o Irã, o que impactaria a decisão dos eleitores nas eleições presidenciais de outubro.

“Lula sempre tem um posicionamento ambíguo, com um discurso para cada platéia”, afirma Ferreira. “Logo após o convite, ele voltou a declarar que não tinha nenhuma crítica nem questão com relação ao respeito do Irã aos direitos humanos.”

A sentença imposta a Ashtiani, 43 anos, suscitou manifestações de organizações internacionais de direitos humanos e numerosos protestos no mundo inteiro.

Em 2006, Ashtiani levou 99 chibatadas pelas "relações ilícitas" que tivera com dois homens depois de enviuvar, o que é considerado adultério segundo as leis islâmeicas, relatou a Anistia Internacional. A organização registrou 126 execuções de 1º de janeiro a 6 de junho no Irã.

O Irã afirma, contudo, que Ashtiani não cometeu só adultério, mas também é suspeita de homicídio.

O site iraniano Jahan News relatou que Ashtiani fora condenada pela morte do marido, mas os juízes não haviam liberado essa informação para a imprensa porque os detalhes do assassinato eram "horríveis demais", informou o New York Times.

Em julho, um tribunal iraniano adiou a decisão final do caso para decidir se Ashtiani deveria ser enforcada ou apedrejada.

Ramin Mehmanparast, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, disse em 3 de agosto que Lula é "uma pessoa muito humana e emotiva, que provavelmente não recebeu informações suficientes sobre o caso", segundo a The Associated Press.

"O que podemos fazer é fornecer a ele (Lula) os detalhes do caso desta pessoa que cometeu um crime, para que possa entendê-lo", disse Mehmanparast, segundo a The Associated Press.

Lula negou ter pedido asilo político para Ashtiani durante uma entrevista coletiva concedida na 39ª Reunião de Cúpula do Mercosul em San Juan, na Argentina, em 3 de agosto, segundo a imprensa brasileira.


							Um menino assina o abaixo-assinado para salvar Sakineh Mohammadi Ashtiani da morte por apedrejamento durante uma manifestação dos membros da Comissão Internacional contra Execuções e Apedrejamento em Trafalgar Square, Londres, em 24 de julho de 2010. (Carl Court/AFP/Getty Images)

Um menino assina o abaixo-assinado para salvar Sakineh Mohammadi Ashtiani da morte por apedrejamento durante uma manifestação dos membros da Comissão Internacional contra Execuções e Apedrejamento em Trafalgar Square, Londres, em 24 de julho de 2010. (Carl Court/AFP/Getty Images)

Lula declarou que seu pedido foi uma tentativa de salvar a vida da iraniana por motivos humanitários.

“Eu estava num comício em Curitiba com a minha candidata, que é mulher, e tinha visto na véspera uma foto - não sei se editada ou não - de uma mulher enterrada até o pescoço para ser apedrejada", disse Lula aos repórteres. "Eu sou cristão, só Deus tem o direito de dar a vida e tem o direito de tirá-la.”

Porém Lula disse que tem "grande respeito" e uma relação de "amizade" com o Irã, segundo a mídia.

A administração de Lula e o Irã se aproximaram nos últimos anos.

O Brasil é o oitavo maior exportador para o Irã. As exportações brasileiras para o Irã totalizaram US$ 1,2 bilhão no ano passado, 7,5% mais que em 2008, segundo o Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

Este ano Lula foi à Teerã para intermediar um acordo de transferência de urânio enriquecido do Irã para a Turquia. Sua meta era ajudar a convencer a comunidade internacional a dar apoio ao programa nuclear do Irã, conforme informou a BBC.

Mas algumas posturas de Lula na política internacional estão gerando controvérsias, diz Ferreira. Sua intimidade com governos considerados antidemocráticos como Irã, Cuba e Venezuela tem sido criticada.

"Ao mesmo tempo em que o Brasil cresce e é economicamente respeitado, Lula caminha para trás em temas diplomáticos", opina Ferreira.


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