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CALI, Colômbia – Helicóptero da Polícia Nacional Colombiana sobrevoa Cali como parte de uma medida de segurança de preparação para a Reunião de Cúpula da Aliança do Pacífico, que ocorrerá em 23 de maio. Líderes de Chile, Colômbia, México e Peru participarão do encontro. (Luis Robayo/AFP)

CALI, Colômbia – Helicóptero da Polícia Nacional Colombiana sobrevoa Cali como parte de uma medida de segurança de preparação para a Reunião de Cúpula da Aliança do Pacífico, que ocorrerá em 23 de maio. Líderes de Chile, Colômbia, México e Peru participarão do encontro. (Luis Robayo/AFP)

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Eleições 2010: Brasileiros dão voto de confiança a celebridades

Comediantes, jogadores de futebol e artistas eleitos deputados federais e estaduais em 3 de outubro.

Por Nelza Oliveira para Infosurhoy.com – 06/10/2010


							O comediante Francisco Everardo Oliveira Silva, famoso em todo o país pelo personagem Tiririca, recebeu 1.353.820 votos em São Paulo, tornando-se o deputado federal mais votado. (Cortesia de www.tiririca2222.com.br)

O comediante Francisco Everardo Oliveira Silva, famoso em todo o país pelo personagem Tiririca, recebeu 1.353.820 votos em São Paulo, tornando-se o deputado federal mais votado. (Cortesia de www.tiririca2222.com.br)

RIO DE JANEIRO, Brasil – O que acontece quando um palhaço de circo e comediante de TV se candidata a deputado federal com o slogan “Pior que tá não fica”?

Ele se torna o congressista mais votado da Câmara de Deputados.

E não é piada.

Francisco Everardo Oliveira Silva, famoso em todo o Brasil pelo seu personagem Tiririca, recebeu 1.353.820 votos pelo estado de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, nas eleições de 3 de outubro.

Nos anos 90, Tiririca conquistou fama nacional com sua canção “Fiorentina”.

Agora deve ganhar notoriedade internacional com o recente desempenho nas urnas, contribuindo para reforçar imagem de que o povo brasileiro tem baixa escolaridade e é desinteressado por política.

Antes mesmo de os brasileiros irem às urnas elegerem Tiririca, as agências de notícias The Associated Press e Reuters já disseminavam pelo mundo a possível eleição de um palhaço – supostamente analfabeto – para o Congresso brasileiro.

Em sua campanha eleitoral, Tiririca dizia desconhecer as atividades de um deputado federal, mas que gostaria de ser eleito para ajudar os pobres, inclusive a própria família.

Infosurhoy.com tentou entrevistar Tiririca por meio de contatos com sua equipe de relações com a mídia, mas os pedidos de entrevista não foram atendidos.

O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) divulgou em 29 de setembro uma notícia em seu website afirmando que o juiz da 1ª Zona Eleitoral de São Paulo, Aloísio Sérgio Rezende Silveira, não acatou a denúncia do Ministério Público Eleitoral (MPE) contra a candidatura de Tiririca por considerar não haver justa causa para ação penal.

Mas Tiririca, eleito pelo Partido da República (PR), não foi o único a usar a fama para tentar conquistar um cargo público.

Diversas celebridades fizeram da notoriedade sua plataforma política.

Do pagodeiro Waguinho (PTdoB), conhecido na década de 1990 quando integrava o grupo Os Morenos, a Ronaldo Ésper (PTC), estilista famoso em programas de TV, que se tornou ainda mais popular depois de flagrado supostamente roubando vasos de um cemitério.

E isso sem falar em Renata Frisson e Suellen Aline, respectivamente Mulher Melão (PHS – PTN) e Mulher Pêra (PTN), dançarinas que expõem seus atributos físicos para aparecer na mídia.


							Romário, que conquistou uma vaga no Congresso pelo Rio de Janeiro, quer prevenir jovens carentes de se envolverem com o narcotráfico. (Cortesia de www.romario11.com.br)

Romário, que conquistou uma vaga no Congresso pelo Rio de Janeiro, quer prevenir jovens carentes de se envolverem com o narcotráfico. (Cortesia de www.romario11.com.br)

Mas nenhuma dessas celebridades se elegeu.

No total, 186 candidatos se identificaram como músicos, cantores e compositores, atores e diretores de espetáculo, atletas profissionais e técnicos, além de modelos, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Mas o número pode ser ainda maior, pois o ex-jogador de futebol Romário (PSB), por exemplo, se identificou como empresário.

O artilheiro da Seleção Brasileira tetracampeã mundial em 1994 foi o sexto deputado federal mais votado no Rio de Janeiro, com 146.859 votos

O “Baixinho”, como é conhecido o craque de 44 anos, autor de mais de 1.000 gols, comprovou que pode ser um político tão habilidoso como foi com a bola.

Uma das bandeiras levantadas por Romário durante a campanha eleitoral foi a criação de polos de atendimento em saúde, educação e esporte para crianças carentes com necessidades especiais.

O jogador tem uma motivação particular para lutar pela causa: a filha Ivy, 5 anos, portadora de Síndrome de Down.

“Hoje uma mãe de criança especial tem de pegar dois ou três ônibus com um filho, que às vezes tem dificuldade motora, até chegar a um posto onde ele possa ter atendimento neurológico”, disse Romário. “Depois pega mais outras conduções para levar o filho na fisioterapia, fonoaudiologia, escola e por aí vai.”

Romário, que nasceu no Jacarezinho, uma das maiores favelas do Rio, e cresceu na Vila da Penha, um bairro de classe média e média baixa, busca nas origens humildes a inspiração para suas propostas na política.

“Quero ajudar as crianças e jovens, principalmente das comunidades, a dar um drible no crack, nas drogas e na onda de ser fogueteiro do tráfico”, afirmou. “Na política, sei que posso mudar essa realidade através do esporte.”

Bebeto, parceiro de Romário na Seleção de 1994, concorreu a uma vaga na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro com o nome “Bebeto Tetra” (PDT).

O jogador não teve nas urnas o mesmo desempenho dos gramados, mas garantiu sua vaga como o 62° deputado estadual mais votado, com 28.328 votos.

Celebridades são puxadoras de votos

Os partidos políticos chegam a disputar a filiação de celebridades, pois os famosos são considerados “puxadores de votos”.

O chamado quociente eleitoral, que é o resultado do número de votos válidos dados a todos os candidatos e legendas dividido pelo número de vagas a preencher em cada estado, explica a caça dos partidos por celebridades.

Quando o número de votos de um candidato ultrapassa o quociente eleitoral, o excedente vai para seus companheiros de chapa, aumentando as chances de uma legenda ter ainda mais políticos eleitos para deputado estadual e federal.


							O ex-jogador Bebeto, eleito deputado estadual no Rio de Janeiro, é visto nesta foto na festa Heineken Brings UEFA Champions League Trophy no Les Deux em 16 de março em Hollywood, na Califórnia. (Jordan Strauss/Getty Images)

O ex-jogador Bebeto, eleito deputado estadual no Rio de Janeiro, é visto nesta foto na festa Heineken Brings UEFA Champions League Trophy no Les Deux em 16 de março em Hollywood, na Califórnia. (Jordan Strauss/Getty Images)

Em São Paulo, por exemplo, o quociente eleitoral para deputado federal foi de 304.533 votos. Os 1.353.820 de Tiririca garantiram a vaga de mais três candidatos do seu partido, independente do número de votos que eles obtiveram.

“É uma estratégia dos partidos chamar essas pessoas”, explica Ricardo Ismael, professor de Sociologia e Política da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). “Por trás do Tiririca, por exemplo, existiam seis partidos coligados. Eles deram muito mais espaço na TV para Tiririca do que para os outros candidatos da coligação.”

Mas para senador são eleitos os dois candidatos que tiverem o maior número de votos em cada um dos 26 estados e no Distrito Federal.

Isso explica por que apenas quatro das 186 celebridades que disputaram as eleições de 3 de outubro se candidataram ao Senado.

Representando uma coligação de 11 partidos, Netinho de Paula, que fez sucesso como cantor de pagode da banda Negritude Jr. e como apresentador de TV, tentou uma vaga no Senado por São Paulo, depois de eleito o terceiro vereador mais votado da capital paulista em 2008.

“Respeito o direito democrático de todos os artistas que querem disputar, mas acredito que, artistas ou não, quem se dispõe a concorrer a um cargo público deve apresentar propostas à população, dedicar-se à solução dos problemas”, defende Netinho.

São vários os motivos que levam os eleitores a votarem nos famosos, diz Paulo Roberto Leal, doutor em Ciência Política e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

“No caso de Tiririca, muitos de seus possíveis eleitores imaginam fazer um voto de protesto contra aquilo que compreendem ser um processo político viciado,” afirma Leal.

Ismael completa: “Romário é um ídolo. Foi o craque de times que formam as maiores torcidas do Brasil. Ele apresentou uma proposta, e as pessoas lhe deram um voto de confiança”.

Candidatar-se sem experiência legislativa não é um problema, diz Leal. O preocupante é os brasileiros elegerem candidatos sem propostas.

“Quem quer que ganhe com o voto do povo, utilizando legitimamente as regras em vigor, tem legitimidade para exercer o mandato”, observa Leal. “Resta esperar que o eleitorado puna aqueles que não tiverem bom desempenho, não os reconduzindo ao poder depois.”


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