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PUERTO SUÁREZ, Bolívia – Os prefeitos de Corumbá-MS, Paulo Duarte (esquerda), e da cidade boliviana de Puerto Suárez, Roberto Vaca Yorge, assinaram um acordo de cooperação em março para trabalhar em parceria nas áreas de saúde, educação, comércio e turismo. (Cortesia de Marcos Boaventura/Cidade de Corumbá)

PUERTO SUÁREZ, Bolívia – Os prefeitos de Corumbá-MS, Paulo Duarte (esquerda), e da cidade boliviana de Puerto Suárez, Roberto Vaca Yorge, assinaram um acordo de cooperação em março para trabalhar em parceria nas áreas de saúde, educação, comércio e turismo. (Cortesia de Marcos Boaventura/Cidade de Corumbá)

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Favelas na mira dos bancos privados

Bradesco e Santander abrem agências na Rocinha e no Complexo do Alemão.

Por Danielle Melo para Infosurhoy.com – 05/11/2010


							Com estabilidade econômica e conquistas sociais, o Brasil deve encerrar o ano com alta de 7,5% no PIB, segundo o FMI. Os bancos privados aproveitam o boom para explorar novos mercados nas favelas, como a Rocinha, no Rio. (Sérgio Moraes/Reuters)

Com estabilidade econômica e conquistas sociais, o Brasil deve encerrar o ano com alta de 7,5% no PIB, segundo o FMI. Os bancos privados aproveitam o boom para explorar novos mercados nas favelas, como a Rocinha, no Rio. (Sérgio Moraes/Reuters)

RIO DE JANEIRO, Brasil – O recente boom da economia brasileira revelou um novo nicho de negócios para os bancos: as favelas.

Estimativas apontam que 50 milhões dos 84,4 milhões de brasileiros que formam a chamada população economicamente ativa não têm conta bancária.

Mas agora bancos como Bradesco e Santander veem a população de baixa renda como potenciais clientes e literalmente subiram as favelas do Rio e São Paulo para estar mais perto dos novos correntistas.

O Bradesco foi o pioneiro. Em 2007, abriu uma agência na Rocinha, a maior favela do Rio.

No ano passado, o Bradesco inaugurou outra em Higienópolis, uma das maiores favelas da capital paulista. E, até o fim deste ano, abrirá mais quatro agências em favelas das duas cidades.

Bradesco e Santander negam qualquer negociação com traficantes para viabilizar a abertura de agências em favelas.

A expansão da rede bancária em comunidades de menor renda faz parte de um amplo processo: a chamada bancarização – acesso aos bancos – dos brasileiros.

Desde 2000, o Bradesco montou os chamados correspondentes bancários em 6.200 agências dos Correios e 25.000 estabelecimentos comerciais em todo o Brasil.

Esses locais servem de alternativa para quem mora longe dos grandes centros urbanos ou reside em áreas até então ignoradas pelos bancos – como as favelas –, pois prestam alguns serviços bancários, como pagamento de contas.

Odair Afonso Rebelato, diretor-executivo do Bradesco, diz que 93% dos correntistas atendidos pela rede alternativa e na agência da Rocinha têm renda mensal de até três salários mínimos (cerca de R$ 1.500) e, em geral, é um público ávido por empréstimos.

Como uma das principais fontes de receita dos bancos é a concessão de crédito, o grande número de aprovações de financiamentos acaba compensando o valor reduzido dos empréstimos concedidos a essa população, bem como o risco de calote.

A taxa de inadimplência é de 10%, bem acima da média nacional de 6%, segundo Rebelato.

Clientes buscam empréstimos para abrir negócio próprio


							De 2004 a 2009, o número de contas bancárias aumentou 48% no Brasil, chegando a 133,228 milhões, de acordo com o Banco Central e bancos privados. O salto é resultado do crescimento da economia brasileira e da aposta no mercado de baixa renda, como a agência do Bradesco na Rocinha.  (Danielle Melo para Infosurhoy.com)

De 2004 a 2009, o número de contas bancárias aumentou 48% no Brasil, chegando a 133,228 milhões, de acordo com o Banco Central e bancos privados. O salto é resultado do crescimento da economia brasileira e da aposta no mercado de baixa renda, como a agência do Bradesco na Rocinha. (Danielle Melo para Infosurhoy.com)

A cearense Maria da Silva, 32 anos, é uma das novas correntistas do Bradesco. No fim de setembro, ela abriu uma conta na agência da Rocinha, onde mora há 11 meses, na tentativa de conseguir mais um financiamento.

Maria ganha cerca de R$ 1.500 por mês com a venda de quentinhas. Ela já tomou R$ 6.000 junto ao Banco do Brasil para comprar uma moto e agora quer comprar uma van para o marido, Marcos.

“Ele é motorista há dois anos de uma van que não é dele”, conta. “Vamos tentar um negócio próprio.”

Para atrair clientes como Maria, o Bradesco não exige comprovação de renda, apenas cédula de identidade, Cadastro de Pessoa Física (CPF) e comprovante de residência para abertura de contas.

O banco também facilita a cobrança de tarifas por serviços como extratos e saques. O valor mínimo é de R$ 9 por mês, mas a quantia pode ser convertida em crédito para celular de qualquer operadora.

“Todo cliente é rentável”, diz Rebelato. “Só precisamos encontrar a melhor forma de atendê-lo.”

No Santander, as exigências para abertura de contas também foram reduzidas nos últimos meses com o objetivo de ampliar a base de correntistas. A renda mínima caiu de R$ 1.000 para R$ 600 por mês.

A medida surtiu efeito rápido. Hoje, 2,5 milhões dos 10 milhões de clientes que o banco espanhol tem no Brasil ganham R$ 600 mensais.

Faixa de Gaza Carioca” agora tem agência bancária

Em maio, o Santander deu mais um passo para atrair a população de baixa renda ao abrir uma agência no Complexo do Alemão, uma das favelas mais perigosas do Rio.

A primeira agência do Santander em uma comunidade de baixa renda foi fruto de uma parceria com a organização não-governamental AfroReggae, que promove uma série de ações sociais na cidade e ajudou o banco a escolher o local.


							A moradora da Rocinha Daniele Pinheiro, 34, tem duas contas bancárias e cinco cartões de crédito e débito. O número de cartões de crédito cresceu 184,7% no Brasil nos últimos cinco anos, de acordo com o Banco Central e bancos privados. (Danielle Melo para Infosurhoy.com)

A moradora da Rocinha Daniele Pinheiro, 34, tem duas contas bancárias e cinco cartões de crédito e débito. O número de cartões de crédito cresceu 184,7% no Brasil nos últimos cinco anos, de acordo com o Banco Central e bancos privados. (Danielle Melo para Infosurhoy.com)

Um dos diferenciais da agência do Santander no Complexo do Alemão é uma sala específica para atendimento de interessados em microcrédito – um filão em que o Santander está apostando graças ao aumento do poder aquisitivo da população de baixa renda nos últimos anos.

O salário mínimo mais que duplicou (de R$ 200 em 2002 saltou para R$ 510 em 2010), a taxa de desemprego caiu a níveis históricos, e a inflação vem sendo mantida sob controle.

Em 2009, a chamada classe C, que tem renda domiciliar mensal entre R$ 1.126 e R$ 4.854, passou a representar 50,5% dos brasileiros, segundo levantamento do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, divulgado em setembro passado.

Com tantos motivos para apostar no novo nicho, o Santander estima liberar R$ 280 milhões este ano para microeempreendedores. A quantia supera o montante concedido entre 2002 e 2009: R$ 227 milhões.

Uma característica peculiar das agências em favelas é a prioridade de emprego a moradores. Na agência do Santander, os oito funcionários foram recrutados no próprio Alemão e em comunidades próximas.


							Fonte: Banco Central e bancos privados

Fonte: Banco Central e bancos privados

Crescimento do emprego formal estimula abertura de contas

Muitos dos moradores das favelas só se tornaram correntistas porque, ao encontrarem emprego formal, precisavam ter uma conta bancária para receber seus salários.

Daniele Pinheiro, de 34 anos, está entre a nova base de clientes do Bradesco este ano. Ela foi contratada há poucos meses pela prefeitura para trabalhar numa creche da Rocinha, onde mora desde que nasceu. Até então, tinha apenas uma conta poupança na Caixa Econômica Federal, um banco estatal.

Com duas contas bancárias, ela tem cinco cartões entre débito e crédito. Dois deles são para uso pessoal. Os demais são usados por parentes e amigos que não têm emprego formal, portanto não podem comprovar sua renda e são impedidos de contratar esses serviços na maioria dos bancos privados do país.

“Sempre tem alguém com nome sujo na praça ou que está desempregado e me pede ajuda”, conta.

Ao abrir uma conta bancária, o correntista de baixa renda também começa a mudar de conduta com relação às finanças pessoais.


							Fonte: Banco Central e bancos privados

Fonte: Banco Central e bancos privados

Segundo Rebelato, 83% dos correntistas de baixa renda do Bradesco já fizeram depósitos em contas poupança – um comportamento revolucionário para quem costumava guardar dinheiro debaixo do colchão e não tinha qualquer controle sobre os gastos.

“Eles passam a organizar o orçamento familiar e criam o hábito da poupança”, diz Rebelato. “Isso é muito positivo, pois passam a planejar compras e gastos e podem melhorar de vida ao fazer isso.”

O cozinheiro e morador da Rocinha Raelson Cunha, de 27 anos, aprendeu a controlar mais as despesas. Com salário de R$ 1.400, ele está tentando poupar para ajudar a mulher, Aline, de 25 anos, a abrir uma revenda de sandálias Havaianas.

“Abri a conta para receber meu salário”, diz. “Antes guardava o que recebia no bolso e torrava tudo. Agora consigo chegar ao fim do mês sem me endividar.”


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