Problema se mistura ao trânsito de migrantes que cruzam a região em busca do sonho americano....
LIMA, Peru – O programa Educação Intercultural Bilíngue do Ministério da Educação do Peru visa assegurar que os estudantes indígenas e descendentes de indígenas, andinos e amazônicos, recebam educação em suas línguas nativas e em espanhol.
Heriberto Bustos Aparicio, diretor geral do Educação Intercultural, Bilíngue e Rural, disse que o programa atende 25% dos três milhões de estudantes que necessitam de educação bilíngue.
O programa, criado com base na Lei de Educação Geral nº 28044, foi implantado em 2003, durante o mandato do ex-presidente Alejandro Toledo Manrique.
Mas a lei deriva dos anos 70, quando o quíchua se tornou a segunda língua oficial do Peru, depois do espanhol.
Bustos Aparicio disse que seu departamento aloca anualmente US$ 2,1 milhões (R$ 3,5 milhões) para o projeto, mas o orçamento total do programa chega a US$ 3,1 milhões (R$ 5,2 milhões) porque recebe fundos adicionais de outros departamentos do Ministério da Educação.
“Existem limitações para o Educação Intercultural Bilíngue porque faltam professores e organizações regionais que possam supervisionar o processo educacional, já que o Ministério da Educação é um órgão regulador, não executivo", argumentou ele.
Bustos Aparicio adicionou mais uma dificuldade – que aos poucos vem sendo superada – que é o desinteresse dos pais em incentivar as crianças a serem educadas em suas línguas nativas.
No Peru, existem 43 línguas andinas e amazônicas, das quais apenas 13 foram normatizadas pelo Ministério da Educação, o que quer dizer que contam com um alfabeto e literatura disponível para estudo e pesquisa.
Os estudantes do programa Educação Intercultural Bilíngue precisam receber o mesmo ensino dos estudantes do sistema de educação regular básica do país.
Bustos disse que o programa abrange a pré-escola, para crianças de 3 a 5 anos, e o ensino fundamental, dos 6 aos 11 anos, Os professores dão aulas de acordo com um método elaborado para cada idioma nativo ensinado.
“O professor aplica a metodologia apropriada", disse Bustos Aparicio. “Se a comunidade fala quíchua, a primeira língua de instrução será o quíchua, e o espanhol será ensinado como segunda língua."
Educação na língua shipibo
“Foi o próprio povo shipibo que teve a ideia de criar uma escola bilíngue", disse Emma Franco Saldaña, uma das sete professoras da Instituição Educativa Comunidade Shipibo, no distrito de Rímac, província de Lima.
A escola tem 150 alunos de 3 a 9 anos, dos quais 41 fazem parte da comunidade shipibo residente na área.
Emma disse que a criação da escola foi discutida em 2003 mas só foi oficializada em 2007, com as aulas começando um ano depois.
A maioria dos 22.500 shipibos no Peru vive nas regiões de Loreto, Ucayali, Madre de Dios e Huánuco, de acordo com o censo realizado pelo Instituto Nacional de Estatística e Ciências da Informação (INEI) em 2007. O censo registrou um total de aproximadamente 333.000 pessoas vivendo nas comunidades indígenas naquele ano em todo o país.
“Só temos ensino até o terceiro ano, e é exatamente nessa série que existem mais crianças que precisam ser educadas em seu próprio idioma e aprender o alfabeto shipibo, que tem 19 letras", disse Emma.
A escola começou com jardim da infância e primeiro ano em 2008 e foi acrescentando uma série a cada ano. O período diário de aulas é de cinco horas para os mais novos e seis para os mais velhos. O currículo prevê uma hora de aula de shipibo por dia para todos os estudantes.
“É difícil aprender a língua shipibo,” disse Roberto Huayta Tamayo, aluno do terceiro ano, com 9 anos de idade. “É mais fácil falar do que escrever.”
Emma disse que um dos principais êxitos do programa é que seus estudantes, que falam, escrevem, recitam poesias e cantam na língua nativa, conseguem se integrar melhor na comunidade shipibo.
Ela acrescentou que é fundamental que o Ministério da Educação avalie os resultados do programa.
“Precisamos de mais participação das autoridades para saber se estamos avançando”, disse Emma. “Assim, podemos fazer as modificações e correções necessárias.”
Comentários Sobre o Artigo