Problema se mistura ao trânsito de migrantes que cruzam a região em busca do sonho americano....
SÃO SALVADOR, El Salvador – Toda manhã, a mãe solteira Marta Trujillo se benze antes de sair de casa para vender produtos de beleza e roupas de porta em porta sob o calor escaldante da capital salvadorenha.
“Tenho medo de andar nas ruas”, admite Marta, de 39 anos, que tem três filhos. “Mas preciso alimentar as crianças.”
Marta teme tornar-se mais uma vítima da violência que vem assolando El Salvador, que tem 6 milhões de habitantes.
“Houve um tempo em que a violência prejudicava só as grandes empresas; hoje, todos estamos expostos à ação das gangues”, comenta Marta, que já foi assaltada duas vezes no ano passado.
Os salvadorenhos vivem em casas protegidas por cercas de arame farpado, mantêm cachorros treinados e seguranças particulares na rua.
Segundo a Polícia Nacional Civil, houve 4.053 homicídios no país em 2010. A cada dia, a Procuradoria-geral recebe pelo menos nove novas reclamações de moradores que afirmam estar sendo extorquidos por gangues, na maior parte dos casos organizações criminosas com base na vizinha Guatemala.
“O que ocorre aqui tem proporções bíblicas”, lamenta o fazendeiro José Ángel Martínez, de 75 anos, morador da comunidade rural de Santo Domingo, a 58 km de São Salvador.
“Gangues, narcotraficantes... essas são as pestes que destroem as nossas vidas”, afirma Martínez.
A falta de segurança está freando a expansão econômica de El Salvador – que já é um dos países mais desenvolvidos da América Central – e prejudicando sua capacidade de atrair investimentos internacionais, avalia o empreendedor salvadorenho Francisco de Sola.
“A insegurança e a violência custam caro [para o país]”, ressaltou de Sola durante o VII Fórum do Setor Privado, da Organização dos Estados Americanos (OEA), realizado em São Salvador entre 2 e 3 de junho. “Afetam a competitividade das empresas nacionais e afastam os investidores estrangeiros.”
“A falta de segurança custa ao país US$ 2 bilhões por ano. Esse valor, que inclui gastos públicos e privados, representa cerca de 10,8% do produto interno bruto (PIB) de El Salvador”, acrescentou de Sola.
As empresas salvadorenhas perdem competitividade porque gastam mais com segurança privada, afirma de Sola.
“Não é incomum ver seguranças particulares de empresas a cada esquina de São Salvador”.
Segundo a Divisão de Registro e Controle de Serviços de Segurança Privada, um órgão do governo, há em El Salvador 209 empresas de segurança, que empregam um total de 23.500 de guardas. A título de comparação, a Polícia Nacional Civil tem cerca de 20.500 homens.
“O que resta ao país é aceitar seu papel de um dos países de menor crescimento na região em 2010”, lamentou de Sola, citando dados da Comissão Econômica para a América Latina (ECLAC), da Organização das Nações Unidas (ONU).
O secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, afirmou que os governos de toda a região precisam melhorar a segurança e deter a violência.
“Não pode haver democracia a longo prazo quando as sociedades são ameaçadas por esses flagelos”, ressaltou Insulza em pronunciamento na Fundação Guillermo Manuel Ungo, ONG de El Salvador voltada para a segurança pública.
“A insegurança pública é um dos maiores desafios para os governos democráticos”, prosseguiu Insulza. É um problema muito importante, que requer a cooperação de todos; uma questão que os estados têm obrigação de resolver e na qual devem se empenhar.”
Para o secretário-geral da OEA, desenvolvimento econômico e segurança estão interligados.
“Hoje, a segurança dos cidadãos é um serviço público, um bem social público, como a habitação, a educação e a saúde”, afirmou. “É algo que os cidadãos exigem para viver melhor e porque querem desfrutar os resultados de seu trabalho e do de suas famílias.”
Insulza acrescentou: “Na medida em que as nossas economias crescem e se desenvolvem, nossos cidadãos têm direito a aspirar mais alto, e uma de suas aspirações é a maior segurança possível.”
De Sola destacou que é imperativo que o governo, a sociedade e o setor privado trabalhem juntos para tornar El Salvador mais seguro e atraente para os investidores estrangeiros.
“Só há um caminho, que é o diálogo e a busca permanente de consenso”, afirmou.
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