Problema se mistura ao trânsito de migrantes que cruzam a região em busca do sonho americano....
BOGOTÁ, Colômbia – Aureliano Socarreño, 79 anos, e seu neto Julio, 14, dois índios da reserva Nasa West, na região centro-oeste da Colômbia, foram as mais recentes vítimas da violência das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).
Enquanto caminhavam por Planadas, no departamento de Tolima, em 18 de novembro último, Socarreño pisou em uma mina terrestre enterrada pelas FARC e morreu na explosão.
Outros integrantes da tribo correram para ajudá-lo, entrando no campo minado. Foi quando o neto de Socarreño também morreu vítima de um dos explosivos. Um soldado do Exército Nacional que os ajudava foi o alvo seguinte, enquanto dois outros índios ficaram feridos na tentativa de socorro.
O general Henry Torres, comandante da Quinta Divisão do Exército Nacional, declarou à mídia local que as ações das FARC “são uma clara violação do direito internacional humanitário por parte do grupo narcoterrorista.”
A verdade é que, além de colocar bombas, sequestrar pessoas e mantê-las reféns por anos, se autofinanciar com o narcotráfico e outras atividades ilegais, inclusive abusar de seus próprios integrantes, as FARC também atacam sem trégua a população indígena da Colômbia.
Entre 2002 e 2010, 1.500 indígenas foram mortos pela organização terrorista, segundo a Organização Nacional Indígena da Colômbia (ONIC).
“Mil e quinhentos índios mortos em 8 anos é um número que realmente faz qualquer um pensar sobre a ignorância e a barbárie com que as FARC cuidam de seus assuntos”, ressalta Gloria Amparo Rodríguez, especialista em legislação indígena da Universidad del Rosario.
Desde 2004, 80.000 índios foram forçados a deixar suas terras devido às hostilidades das FARC, segundo a ONIC.
“Nossos povos indígenas não podem caminhar livremente em suas próprias terras”, lamenta Luis Evelis, líder indígena e representante da ONIC. “Os guerrilheiros os rodearam de campos minados e matam seus líderes para enfraquecer as comunidades, semeando medo e forçando a dispersão dos [nativos]. [As FARC querem] o controle de zonas estratégicas na sua luta contra o governo e para cultivar folhas de coca.”
Há 1,3 milhão de indígenas na Colômbia, ou 3% da população, segundo o censo de 2005.
Em novembro, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) alertou que “a situação de segurança dos indígenas colombianos é grave e o ACNUR manifesta a sua preocupação com os sérios atos de violência enfrentados pelas comunidades indígenas Embera-Katío, Embera-Dobida e Senú, em Antioquia, e pelo povo Awá, no departamento de Nariño.”
Após a morte do líder das FARC, Alfonso Cano, o Exército colombiano constatou que o grupo terrorista assassinava regularmente líderes indígenas da comunidade Awá em 2009, baseado nas comunicações encontradas em um dos computadores do líder guerrilheiro: “A coluna de Mariscal Sucre executou 8 bandidos indígenas, repudiados pela comunidade, traidores confessos, capturados quando exploravam para o Exército.”
Segundo a ONIC, 40% dos líderes indígenas colombianos já foram ameaçados pelas FARC.
Os departamentos de Antioquia, Nariño e Cauca vivem uma situação delicada em relação a agressão e assassinato de indígenas, denunciou o jornal colombiano El Espectador.
Nos primeiros 6 meses de 2011, 19 índios foram mortos em Antioquia, enquanto as comunidades Embera, de Nariño, já foram declaradas pela ONIC como ameaçadas de extinção.
“Os diferentes protagonistas armados não podem continuar nos matando”, declarou Evelis à mídia local depois que as FARC mataram Fabio Domicó Domicó, líder da comunidade Embera, em novembro último no oeste de Antioquia. “O governo colombiano deve implementar imediatamente ações para proteger a vida de nossos líderes e garantir a sobrevivência de nossas comunidades.”
Para Cecilo Medina, cientista político da Universidad Javeriana, as intenções das FARC de assassinar líderes indígenas e deslocar comunidades são claras.
“Historicamente, os indígenas colombianos têm se mantido neutros em relação ao conflito”, afirma. No entanto, as FARC querem o controle de suas terras para “transformá-las em bases para o tráfico de cocaína. A melhor maneira de conseguir isso é matando os líderes da comunidade e forçando o resto da população se dispersar.”
Medina acrescenta que as FARC frequentemente acusam os índios de colaborar com as autoridades antes de executá-los.
Mas o presidente Santos já deixou claro que protegerá a população indígena de seu país.
Ao assumir a presidência no ano passado, o presidente declarou: “O governo colombiano está comprometido com a proteção de nossas comunidades indígenas. Estamos empenhados em proteger suas terras sagradas, seu meio ambiente, e respeitamos sua neutralidade em relação ao conflito, mas não permitiremos que [as FARC] sigam atropelando nossos povos indígenas e seus líderes. Cada comunidade indígena é parte de uma grande estratégia conjunta de segurança que o governo está implementando para manter a paz no país e acabar com as FARC."
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