Problema se mistura ao trânsito de migrantes que cruzam a região em busca do sonho americano....
CARACAS, Venezuela – A advogada venezuelana Rocío San Miguel logo percebeu que algo estava errado com sua conta do Twitter na noite de 6 de setembro do ano passado.
Alguns hackers colocaram uma boina vermelha – semelhante à usada pelo presidente venezuelano Hugo Chávez – na foto de Rocío e tuitaram “Viva [o cubano] Fidel [Castro]” e “Viva Ché [Guevara]”, entre outras mensagens pró-governo, sem o seu conhecimento.
“Comecei a receber ligações e mensagens de texto de amigos dizendo que havia algumas mensagens que eu não costumava escrever no Twitter”, conta a advogada, chefe do observatório venezuelano “Control Ciudadano” (Controle Cidadão) e colunista regular de diversos canais locais.
Rocío, que contava com 83.653 seguidores no Twitter em 11 de janeiro, foi a mais recente vítima de uma série de ataques a contas de personalidades da mídia e outras figuras públicas na Venezuela no ano passado.
Os jornalistas Ibéyise Pacheco e Julio César Pineda também tiveram suas contas hackeadas em 31 de agosto, enquanto as contas de Jesús Torrealba, apresentador do programa de rádio venezuelano “Radar de los Barrios”, e do escritor Leonardo Padrón sofreram ataques em 1º de setembro.
“Como cidadão venezuelano que receia que vai sair e nunca voltar, expresso minha discórdia no Twitter”, disse Padrón em nota. “O sentimento é de invasão e ultraje. Essa ação foi planejada, tramada contra aqueles que expressam o que querem com ênfase e intensidade.”
Em novembro de 2011, foi a vez de Luis Vicente León, presidente da empresa de opinião “Datanálisis”, e Cecilia Arocha, presidente da Universidade Central da Venezuela, terem suas contas invadidas.
O autoproclamado “grupo de hackers venezuelanos”, conhecido como N33, reivindicou a responsabilidade por todos os ataques através de um comunicado.
Os ataques foram “uma ação individual”, afirmou o N33, acrescentando que o governo venezuelano não teve nenhum envolvimento. “A partir dessa conta [do Twitter], a seriedade de nossas instituições foi atacada, mais especificamente a do chefe de estado. Não somos os únicos descontentes com o uso das redes sociais. Fique sabendo, líder da oposição, estamos de olho em você. Todos vocês são alvos.”
Mas nenhum membro do N33 – ou qualquer outro suspeito – foi levado à justiça em nenhum dos casos, embora a pirataria na internet seja passível de penas que variam de 4 a 8 anos de prisão, segundo a lei do país.
Em oito ocasiões, Rocío tentou que a Procuradoria Geral abrisse uma investigação sobre quem teria invadido sua conta do Twitter, mas nada aconteceu.
O país andino possui inúmeras leis, incluindo a de 2001 contra crimes cibernéticos, para evitar o acesso não autorizado a computadores e contas de redes sociais, afirma Raymond Orta, um advogado venezuelano especialista no assunto.
“Mas, acima de tudo, a Constituição venezuelana foi violada”, acrescenta Orta. “Ela garante o direito à privacidade de dados e comunicações pessoais. Alguns dos artigos dessa lei, inclusive os que regulam a privacidade de dados e espionagem eletrônica, foram violados durante a onda de ataques de hackers.”
Orta conclamou as vítimas de cibercrimes a entrar em contato com as autoridades, mesmo que isso não leve a uma investigação.
“Quem sabe, algum dia haverá um Judiciário que honre as leis e puna [os hackers]”, exaltou.
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