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CALI, Colômbia – Helicóptero da Polícia Nacional Colombiana sobrevoa Cali como parte de uma medida de segurança de preparação para a Reunião de Cúpula da Aliança do Pacífico, que ocorrerá em 23 de maio. Líderes de Chile, Colômbia, México e Peru participarão do encontro. (Luis Robayo/AFP)

CALI, Colômbia – Helicóptero da Polícia Nacional Colombiana sobrevoa Cali como parte de uma medida de segurança de preparação para a Reunião de Cúpula da Aliança do Pacífico, que ocorrerá em 23 de maio. Líderes de Chile, Colômbia, México e Peru participarão do encontro. (Luis Robayo/AFP)

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Colômbia: Reintegração transforma vidas

A Agência Colombiana de Reintegração presta assistência a 31.300 ex-integrantes de grupos ilegais que largaram as armas.

Por Leandra Felipe para Infosurhoy.com – 07/08/2012


							Álvaro Pérez, 53, atuou nas FARC de 1996 a 2006. Dono da Colfepaz, uma confecção em Bogotá, ensina os segredos da costura à filha mais nova, Verónica, 29, que cresceu em meio ao conflito armado. (Juan Carlos Rocha para Infosurhoy.com)

Álvaro Pérez, 53, atuou nas FARC de 1996 a 2006. Dono da Colfepaz, uma confecção em Bogotá, ensina os segredos da costura à filha mais nova, Verónica, 29, que cresceu em meio ao conflito armado. (Juan Carlos Rocha para Infosurhoy.com)

BOGOTÁ, Colômbia – Pelo menos 54.783 já abandonaram as armas. Desses, 31.300 estão em processo de reintegração à sociedade.

Dezessete mil participaram de cursos profissionalizantes e 8.588 já têm emprego formal, segundo a Agência Colombiana de Reintegração (ACR).

Por trás dos números, histórias de coragem e superação como a do microempresário Álvaro Pérez, 53 anos, e a do vendedor Juan Pablo, 39, que falou ao Infosurhoy.com sob condição de anonimato.

Pérez, que atuou nas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) de 1996 a 2006, é dono da Colfepaz, uma pequena confecção em Bogotá, com capacidade para produzir até 20.000 peças de roupas e mochilas por mês. Ele emprega de 18 a 28 pessoas, conforme a demanda.

Já Juan Pablo, que atua como vendedor em um centro comercial em Bucaramanga, no Departamento de Santander, ainda teme o preconceito e represálias. Ele mantém em segredo seu passado de ex-integrante do grupo paramilitar das Autodefensas da Colômbia (AUC), em que atuou de 2004 a 2006.

“Eu não consegui emprego contando que sou ex-paramilitar. Se descobrem que uma pessoa era paramilitar, no dia seguinte pode ser mandada embora”, afirma.


							A Colfepaz, confecção criada por Álvaro Pérez, um ex-costureiro das FARC,  tem capacidade para produzir até 20.000 peças de roupas e mochilas por mês. (Juan Carlos Rocha para Infosurhoy.com)

A Colfepaz, confecção criada por Álvaro Pérez, um ex-costureiro das FARC, tem capacidade para produzir até 20.000 peças de roupas e mochilas por mês. (Juan Carlos Rocha para Infosurhoy.com)

Juan Pablo era camponês no Departamento de Santander, e sua propriedade estava sendo atacada pelas FARC. Mas, nem mesmo para defender sua propriedade, Juan Pablo se adaptou à cultura das AUC de usar armas e agir na ilegalidade.

Em 2006, decidiu largar o grupo paramilitar. Pouco depois, foi alvo de um atentado das Bacrims (bandas criminais), quando foi atingido por três tiros.

“Sobrevivi por milagre”, diz. “Depois disso, resolvi sair de Santander e, em 2008, entrei no programa de reintegração do governo.”

A chamada rota de reintegração dura, em média, seis anos e meio e é coordenada pela ACR. Até hoje, apenas Juan Pablo cumpriu toda a jornada. A estimativa da agência é que, até o fim do ano, outros 1.000 cruzem a mesma linha de chegada.

Além das AUC, o programa tem como alvos os desmobilizados das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), Exército de Libertação Nacional (ELN) e Exército Popular de Libertação (EPL).

Para se reintegrar, o primeiro passo é o desarme. O guerrilheiro interessado em abandonar a vida ilegal deve procurar uma autoridade civil ou militar na região onde vive.

Motivado por uma visão romântica das FARC em uma época de dificuldades financeiras, Pérez ingressou nas FARC aos 38 anos. Na época, já alfaiate, costurava uniformes para os guerrilheiros.

Mas logo veio a desilução com o movimento.


							Julio Sánchez, 32, deixou o departamento de Tolima para fugir da pressão das FARC, que buscavam homens jovens para recrutar. Há três anos, ele encontrou uma oportunidade na Colfepaz, confecção criada por um ex-costureiro das próprias FARC. (Juan Carlos Rocha para Infosurhoy.com)

Julio Sánchez, 32, deixou o departamento de Tolima para fugir da pressão das FARC, que buscavam homens jovens para recrutar. Há três anos, ele encontrou uma oportunidade na Colfepaz, confecção criada por um ex-costureiro das próprias FARC. (Juan Carlos Rocha para Infosurhoy.com)

“Vi de perto os abusos e crimes que as FARC cometiam”, diz.

As atrocidades e as falsas promessas – o salário prometido só foi pago por três meses e ele não podia sequer mandar dinheiro para a esposa e as três filhas – logo revelaram à Pérez a verdadeira face da guerrilha.

Mesmo assim, ele passou uma década nas FARC.

“Eu queria ter abandonado antes, mas tinha medo de que minha família fosse perseguida do lado de fora”, diz.

Em 2006, ele superou o medo. Junto com outros 9 guerrilheiros procurou a ACR e iniciou o processo de reintegração.

Atendimento integral

O programa de reintegração da ACR presta atendimento psicopedagógico aos ex-guerrilheiros, além de oferecer educação básica, ensino médio supletivo e cursos profissionalizantes. Muitos desmobilizados sequer haviam concluído o ensino fundamental antes de entrar para os grupos armados ilegais.

A iniciativa também oferece atendimento psicossocial aos parentes para facilitar a reinserção familar dos desmobilizados.

Para promover a integração com a comunidade, a ACR concentra esforços na recolocação dos ex-guerrilheiros no mercado de trabalho. Os desmobilizados também são monitorados para diminuir as chances de reincidência em atos criminosos.

Assim que abandonam os grupos ilegais e procuram a ACR, os desmobilizados passam a receber 480.000 pesos colombianos (cerca de R$ 541) por mês, desde que participem de menos 90% das atividades propostas pela agência – palestras, cursos, atividades comunitárias.

Além do medo das ameaças, o preconceito social também impede mais deserções, diz Alejandro Eder Garcés, diretor geral da ACR.


							Álvaro Pérez (esquerda), ao lado da esposa, Olga Lucía Molano, das filhas, Lady e Verónica, e das funcionárias Lizeth Portela e Luz Marina Zárate, mostra peças produzidas pela Colfepaz. (Juan Carlos Rocha para Infosurhoy.com)

Álvaro Pérez (esquerda), ao lado da esposa, Olga Lucía Molano, das filhas, Lady e Verónica, e das funcionárias Lizeth Portela e Luz Marina Zárate, mostra peças produzidas pela Colfepaz. (Juan Carlos Rocha para Infosurhoy.com)

“É preciso conscientizar a sociedade sobre seu papel em receber e perdoar os ex-guerrilheiros”, completa. “É compreensível que os ex-integrantes dos grupos ilegais sejam recebidos pela população civil com desconfiança, mas aceitar os ex-guerrilheiros na comunidade é um passo importante para a construção da paz.”

Pérez e Juan Pablo são exemplos bem sucedidos de desmobilização e reintegração. Mas grande parte dos desmobilizados não conclui o processo e volta à ilegalidade.

A ACR não tem dados sobre reincidência, mas aponta a falta de apoio familiar, a dificuldade em conseguir emprego e principalmente o descumprimento de todas as etapas do programa de reintegração como as principais causas do retorno à ilegalidade.

“A pessoa que cumpre 90% das atividades e que se dedica durante a rota de reintegração tem muito mais chances de se reintegrar plenamente e de não reincidir”, defende Garcés.

Para Pérez, ter recuperado a liberdade de ir e vir, poder empreender e ter uma vida normal com a família foram os maiores incentivadores.

“Trabalho de domingo a domingo”, diz, ressaltando que se esforça ao máximo para cuidar de sua imagem e provar que “é uma pessoa de bem”.

Juan Pablo também faz de tudo para apagar sua participação nas AUC. Ele é considerado o aluno modelo do programa da ACR, pois foi o primeiro desmobilizado a cumprir toda a rota de reintegração.

“A vida me deu uma nova oportunidade e sei que vou conseguir ir muito mais longe”, diz Juan Pablo.


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