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ASSUNÇÃO, Paraguai – “Agora assumimos o controle!... Somos os donos do pavilhão... Estamos cansados de tanta repressão!”.
É com essas palavras que Leonardo Martínez, que cumpre pena de oito anos e meio na penitenciária de Tacumbú, em Assunção, inicia a música "Los dueños del pabellón" ("Os donos do pavilhão"), da banda argentina de cumbia “Damas Gratis”.
O palco está dentro da maior instalação correcional do país, no bairro de Tacumbú, onde os presidiários se apresentam para seus companheiros de prisão.
“Quero que todos se amotinem", gritou Martínez, 22 anos, no meio da música. "Levantem bem as mãos. Que comecem a rezar os guardas e os abrigados nesta prisão.”
O pessoal de segurança da penitenciária não interpretou como desacato as palavras dele, pois continuaram a apreciar o show.
Martínez, que está sob custódia há quatro meses, é o vocalista principal da “Boina Verde”, uma banda formada por condenados que cumprem pena em Tacumbú.
A ONG Fundação Torypá vem facilitando a prática da música na penitenciária, que também abriga as bandas “Los Aborígenes” e “Dúo Dinámico”.
Torypá significa “muito feliz” em Guarani.
“Um companheiro de cela, que administra os instrumentos musicais do departamento de Cultura que funciona aqui, me ensinou a tocar baixo. Graças a ele fui aprendendo, depois nos juntamos com outros rapazes e começamos a ensaiar", conta César Rubén Barrientos, baixista da “Boina Verde”.
Barrientos, de 26 anos, disse que tocar violão tem sido um passo importante para sua reabilitação. Ele está preso há quatro anos, condenado por assalto qualificado, mas pode ser libertado já no mês que vem.
“A música que fazemos é como uma terapia para nós, pois nos ajuda a pensar em coisas boas e nos afastar das ruins”, disse Barrientos. “Aqui dentro, aprendi a dar valor à vida. Espero sair e retomar a minha vida, porque percebi que o mundo em que estava vivendo não valia a pena. Por isso, de certa forma, agradeço por estar aqui, e não no cemitério”.
No fim do show, Martínez disse que estava "profundamente comovido" com a apresentação. Ao contrário de Barrientos, ele já tivera educação musical antes de ser preso.
“Gosto muito de música e foi uma grande emoção cantar diante de todos os companheiros e sentir todo o apoio deles. Tomara que eu saia logo para me dedicar à música e dar a mim mesmo uma nova oportunidade”, ressaltou.
A música apresentada por Duilio Pereira e seu grupo “Los Aborígenes” se chama polca paraguaia, um estilo folclórico cujas letras são cantadas em guarani.
Pereira, de 45 anos, disse que está atrás das grades "há quatro anos e dois meses por um roubo [de que sou inocente].”
Ele diz que a música tem ensinado os presidiários a ter uma perspectiva positiva.
“Não estamos destruídos, valemos muito e podemos dar coisas boas à sociedade”, disse. "Todos têm tropeços na vida e temos de aprender com os nossos erros. É por isso que, para nós, aprender mais sobre música é uma grande realização.”
Pereira é grato à Fundação Torypá por possibilitar que os presidiários se expressem por meio da música.
“Estamos pensando em gravar um disco, com algumas composições minhas, por intermédio da Fundação", disse. "Minha pena está prestes a terminar e, quando sair [da prisão], vou me dedicar inteiramente à música. Antes de vir para a cadeia, a música era só um passatempo para mim, mas, aqui, percebi que é o que mais me agrada fazer."
Chris Chippendale, da Fundação Torypá, disse que a música faz bem aos presidiários.
“A ideia é trabalhar com os internos para ajudá-los no que for possível. A arte ajuda a elevar a autoestima deles", disse. "Aqui estamos percebendo uma mudança nos rapazes, há uma euforia positiva e isso é bom. Tomara que se formem mais grupos musicais e que mais gente participe desse desafio.”
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