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TEGUCIGALPA, Honduras – O ministro da Defesa de Honduras, Marlon Pascua, mostra as armas de 13 supostos narcotraficantes detidos pela Marinha, na semana passada, no Mar do Caribe. Além das armas, foram confiscados US$ 658.000. (Ministério da Defesa de Honduras/AFP)

TEGUCIGALPA, Honduras – O ministro da Defesa de Honduras, Marlon Pascua, mostra as armas de 13 supostos narcotraficantes detidos pela Marinha, na semana passada, no Mar do Caribe. Além das armas, foram confiscados US$ 658.000. (Ministério da Defesa de Honduras/AFP)

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Vítimas de violência auxiliadas no Brasil

Minas Gerais, São Paulo e Distrito Federal têm programas para ajudar a superar danos causados por atos violentos.

Por Cristine Pires para Infosurhoy.com – 30/12/2010


							Um manifestante finca uma cruz no chão em ato simbólico no centro do Rio de Janeiro em 11 de maio de 2009. A ONG Rio de Paz colocou 17.000 pedras no chão para representar as vítimas mortas nos últimos 28 meses no Estado do Rio. (Sergio Moraes/Reuters)

Um manifestante finca uma cruz no chão em ato simbólico no centro do Rio de Janeiro em 11 de maio de 2009. A ONG Rio de Paz colocou 17.000 pedras no chão para representar as vítimas mortas nos últimos 28 meses no Estado do Rio. (Sergio Moraes/Reuters)

PORTO ALEGRE, Brasil – Em 17 de agosto de 2002, o jovem Max Fernando de Paiva Oderich foi de São Sebastião do Caí a Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, para comprar o terno de sua formatura, que seria uma semana depois. Desde que partiu para a pequena viagem de 60 km, nunca mais voltou para casa.

Um tiro interrompeu a trajetória do futuro administrador de empresas, então com 26 anos.

Max foi assaltado ao sair de um shopping center.

“Eu e minha esposa decidimos que tínhamos que buscar o diploma por ele”, conta o pai, o empresário do ramo da construção civil Luiz Fernando Oderich, 60 anos.

Cada vez mais famílias integram as estatísticas alarmantes da violência urbana no Brasil. Os Indicadores de Desenvolvimento Sustentáveis de 2008 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que a média de homicídios por 100 mil habitantes subiu de 19,2 para 26,9, no período de 1992 a 2004.

Dados como esses têm levado os estados a intensificar programas gratuitos de auxílio para recuperação das vítimas de violência. São Paulo, Minas Gerais e Distrito Federal têm iniciativas consideradas referências nacionais.

Os três programas têm um sistema semelhante: todos trabalham com uma equipe multidisciplinar de apoio nas áreas jurídica, psicológica e social.

Em Minas Gerais, o Núcleo de Atendimento às Vítimas de Crimes Violentos (NAVCV) recebe, em média, 40 novos casos por mês somente em Belo Horizonte. Em 2008, foram mais de 2,4 mil atendimentos em todo o estado de Minas. Em 2009, o número ultrapassou os 3,1 mil casos. O primeiro núcleo foi instalado na capital mineira em 2000.

Há mais de 10 anos, o governo de São Paulo oferece o Centro de Referência e Apoio à Vítima (Cravi), um programa da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania.

A prioridade é para casos de homicídio, latrocínio, violência sexual e violência doméstica. O atendimento é realizado por assistentes sociais, psicólogos, defensores públicos e oficiais administrativos. Desde sua fundação, em 1998, até novembro de 2010, o serviço realizou 16.354 atendimentos.


							Manifestantes usam máscaras brancas durante ato simbólico no centro do Rio de Janeiro em 11 de maio de 2009, em resposta ao aumento de homicídios no Estado do Rio. (Sergio Moraes/Reuters)

Manifestantes usam máscaras brancas durante ato simbólico no centro do Rio de Janeiro em 11 de maio de 2009, em resposta ao aumento de homicídios no Estado do Rio. (Sergio Moraes/Reuters)

“O primeiro atendimento é feito no Fórum Criminal Central de São Paulo e, a partir dali, é dado o encaminhamento conforme as peculiaridades do caso”, explica Shigueo Kuwahara, coordenador do Cravi.

Como são casos de violência, todos os relatos são muito complexos, explica Kuwahara.

“As vítimas têm sua vida mudada, a rotina interrompida pela brutalidade e precisam de muita ajuda para conseguir se recuperar, por isso a necessidade de todo um apoio multidisciplinar”, completa.

A demanda por justiça é outro serviço requisitado pela maioria das vítimas atendidas.

“A quase maioria absoluta dos casos busca punição dos responsáveis pelo crime, por isso as três áreas – jurídica, assistência social e psicológica – têm que trabalhar juntas”, diz Kuwahara.

Ceará e Rio de Janeiro também estão desenvolvendo centros de atendimento para vítimas de violência, adianta Kuwahara.

Distrito Federal tem ação inovadora

Bem mais recente, o Pró-Vítima, do Distrito Federal, parte das ocorrências policiais para procurar as vítimas de violência e oferecer seus serviços. A atitude surpreende positivamente quem recebe a visita do programa.

“As pessoas ficam surpresas, algumas chegam até a desconfiar, mas ficam muito gratificadas, pois estão em um momento de maior carência, fragilidade e perplexidade, precisando de ajuda”, resume Valéria de Velasco, subsecretária de Proteção de Vítimas de Violência da secretaria de Estado da Justiça, Direitos Humanos e Cidadania do Governo do Distrito Federal.

Criado em abril de 2009, o Pró-Vítima é um programa de atendimento a vítimas de homicídios, latrocínios, trânsito, sexual, doméstica, familiar, desaparecimento e sequestros.

Além das visitas, os processos podem ser abertos por meio de demanda espontânea ou por encaminhamento de algum órgão, como escolas, Ministério Público ou juizados especiais.


							Equipe médica atende vítimas de violência urbana no Hospital Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. (Sergio Moraes/Reuters)

Equipe médica atende vítimas de violência urbana no Hospital Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. (Sergio Moraes/Reuters)

De janeiro a 15 de novembro deste ano, o Pró-Vítima atendeu 1.388 pessoas.

“Na grande parte dos casos, notamos a recuperação dessas pessoas com o trabalho simultâneo das três áreas, principalmente em função da perspectiva de verem a possibilidade de fazer a justiça acontecer”, diz Valéria. “É a perspectiva de solução que muda a vida dessas pessoas.”

Mas o Pró-Vítima também quer interferir nas políticas públicas. Com as ocorrências em mãos, será possível traçar um mapa com o tipo de crime que mais acontece em cada região.

“Vamos saber, por exemplo, se uma área é mais propensa a homicídios ou a estupros, e então definir qual proposta de segurança pública tem que ser adotada ali”, explica Valéria.

Dor transformada em atitude

A perda de Max foi um trauma para a família Oderich.

Mas, logo após a solenidade que marcaria a formatura do filho, Luiz Fernando Oderich decidiu transformar a dor em uma atitude que tem ajudado muitas famílias.

Ele criou a ONG Brasil sem Grades, que atua na prevenção ao crime.

“Ficamos com a ideia de que não podíamos nos esconder atrás das grades de proteção da nossa casa para fugir da criminalidade, mas que era preciso enfrentá-la de frente”, lembra, referindo-se à reação mais comum da sociedade, que é se proteger da violência de todas as maneiras possíveis.

As pessoas vivem cada vez maisconfinadas, diminuem sua vida social, experimentam sentimentos de impotência que provocam mudanças em sua maneira de viver por causa da violência, afirma a psicóloga Heloisa Schauff.

Mas os Oderich não quiseram viver assim.

Em vez de se esconder, optaram por desenvolver uma iniciativa que pretende mudar o país.


							Luiz Fernando Oderich, 60, transformou a dor de ter seu filho de 26 anos, Max Fernando de Paiva Oderich, morto em 2002 em atitude com a criação de uma ONG que visa à prevenir o crime. (Cortesia de Brasil sem Grades)

Luiz Fernando Oderich, 60, transformou a dor de ter seu filho de 26 anos, Max Fernando de Paiva Oderich, morto em 2002 em atitude com a criação de uma ONG que visa à prevenir o crime. (Cortesia de Brasil sem Grades)

A ONG Brasil sem Grades desenvolve programas para evitar que o crime aconteça.

“Não é apenas a desigualdade econômica que faz com que as pessoas roubem. Crianças indesejadas são abandonadas à própria sorte, nas ruas, isso precisa acabar”, defende.

O projeto Paternidade Responsável, por exemplo, busca a aproximação da figura paterna na educação dos filhos.

“Está comprovado que essa relação do filho com o pai reduz muito os índices de criminalidade”, argumenta Oderich.

Problema interfere na saúde pública

O tráfico de drogas é a principal causa das agressões que levam vítimas de violência a procurar atendimento no Hospital Cristo Redentor, em Porto Alegre.

“São muitas vidas perdidas e outras tantas sequeladas por traumatismo crânio-encefálico por disparos a bala”, relata a médica Andrea Regner, assistente de Coordenação do Centro de Resultados de Pacientes Externos do Hospital Cristo Redentor do Grupo Hospitalar Conceição.

Cerca de dois milhões de vítimas de traumatismos em geral são internadas por ano em hospitais da rede pública, segundo o Ministério da Saúde.

O trauma é a segunda causa mais frequente de morte no Brasil, considerando-se todos os grupos etários, e a principal causa de morte em pessoas de 1 a 44 anos de idade.

Estima-se que 300 pessoas morram diariamente em decorrência do trauma no Brasil, e cerca de metade dessas mortes deve-se ao traumatismo crânio-encefálico, diz Andrea. “Estamos falando da perda afetiva e também financeira para milhares de famílias, que perdem o ente querido e também a pessoa que muitas vezes era responsável pelo sustento da casa”, completa.

Há também o alto custo social, pois muitos sobreviventes acabam recorrendo à Previdência Social para o tratamento de reabilitação. Andrea defende a adoção de políticas públicas consistentes de reabilitação de longo prazo, de forma a resgatar a autonomia dos pacientes.

“Não adianta investir apenas no primeiro atendimento”, argumenta Andrea.

Para buscar ajuda, clique aqui.


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