Problema se mistura ao trânsito de migrantes que cruzam a região em busca do sonho americano....

Otávio César Júnior, o “Livreiro do Alemão”, que acaba de fundar a primeira biblioteca infanto-juvenil para os complexos do Alemão e da Penha: “Trabalho para que as crianças não se envolvam com a criminalidade. Com a leitura, eu dou uma opção de novas possibilidades e perspectivas para o futuro delas.” (Renzo Gostoli/Austral Foto para Infosurhoy.com)
RIO DE JANEIRO, Brasil – "Na entrada de cada comunidade, há locadoras de DVDs cheias de novidades pirateadas e lan houses.(...) Nos postes, dá para ver as ligações clandestinas de TV a cabo. É assim que as crianças passam seu tempo livre por aqui."
Mas as histórias narradas – e vividas – pelo protagonista e autor de “O Livreiro do Alemão", de onde foi extraída a descrição acima, já estão transformando esse cenário.
Apaixonado por livros, Otávio César Júnior, de 27 anos, decidiu compartilhar o sentimento com as crianças da Vila Cruzeiro, uma das 10 favelas que integram o Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, e do vizinho Complexo do Alemão, conjunto de outras 15 favelas.
Há três meses, na parte mais alta da Vila Cruzeiro, onde César Júnior nasceu e cresceu, ele inaugurou a primeira biblioteca para crianças da região.
Os dois complexos eram conhecidos como os mais violentos do Rio. A situação só começou a mudar na região em novembro de 2010, quando, em uma operação histórica, as Forças de Segurança do Rio de Janeiro, com o apoio das Forças Armadas, livraram os moradores de mais de 20 anos de domínio do tráfico nas duas áreas.
A biblioteca fundada por César Júnior é simples: tem um computador, duas estantes, três pufes e um acervo de 1.000 livros infanto-juvenis e histórias em quadrinhos.
César Júnior admite que o tráfico é a referência de mundo adulto para a maioria dos jovens que moram nos morros do Rio.
“Trabalho para que as crianças não se envolvam com a criminalidade”, explica. “Com a leitura, eu dou uma opção de novas possibilidades e perspectivas para o futuro delas.”
César Júnior mal havia sido alfabetizado quando a leitura tornou-se uma paixão.
Aos 8 anos, ao contornar o campinho de futebol da favela, César Júnior viu uma caixa cheia de brinquedos quase novos em meio ao depósito de lixo que cercava o local. Ao dar um grito de surpresa ante o achado, ele atraiu outros garotos.
Na disputa com os maiores, César Júnior só conseguiu pegar um livro infanto-juvenil intitulado “Don Gatón”.
Naquela noite, uma chuva forte deixou o morro sem energia elétrica. Sob a luz de duas velas que iluminavam a casa de um único cômodo que César Júnior dividia com os pais e a irmã mais nova, ele começou a folhear o livro para passar o tempo.
O menino não conseguiu mais largar o livro. César Júnior passou uma semana lendo e relendo o exemplar.
Na busca de outros livros, César Júnior começou a pegar emprestado títulos de vizinhos e da escola.
O garoto envolveu-se tanto com a leitura que, na adolescência, decidiu que seria escritor.
César Júnior escrevia e enviava suas histórias para editoras. Ao mesmo tempo, tomou gosto pelo teatro na escola.
Aos 16 anos, César Júnior montou e escreveu sua própria peça de teatro. Fazia apresentações nas escolas e cobrava R$ 1 por ingresso.
“Tinha a agenda cheia”, lembra.
Mas as editoras não se interessavam pelos seus textos, o que mudou em 2003, quando César Júnior encontrou uma gráfica que aceitou imprimir gratuitamente 100 exemplares de uma de suas histórias.
Ele então passou a ler seu próprio livro para crianças nas escolas, onde também conseguia vender alguns exemplares.
“Estava feliz montando as peças e vendendo os livros, mas sentia vontade de fazer mais pelas crianças da comunidade”, conta.
Em 2004, César Júnior encheu a mochila de livros, pegou um tapete e procurou um lugar movimentado na favela. Ele usou o tapete para forrar o chão, tirou os livros da mochila e chamou a criançada para ouvir as histórias.
A contação de histórias em meio ao vaivém das favelas dos complexos da Penha e do Alemão virou rotina duas vezes por semana.
“Em média, 30 crianças participavam das sessões em associações de moradores, praças, escolas e sedes de ONGs.”, descreve.
Muitas crianças tiveram com César Júnior o primeiro contato com a literatura
Em 2006, ele ganhou R$ 10.000 numa competição de um programa de televisão. A primeira coisa que fez com o dinheiro foi registrar oficialmente o nome “Ler é 10 – Leia favela” para o projeto de incentivo à leitura que vinha desenvolvendo.
Com o resto do prêmio, ele comprou computador, impressora e câmera digital para montar o blog do projeto.
E foi então que César Júnior começou a atrair cada vez mais interessados em seu trabalho.
“Vários amigos ajudaram”, acrescenta.
César Júnior também conseguiu o apoio do Instituto Kinder do Brasil e da Associação dos Agentes Fornecedores de Equipamentos e Insumos para a Indústria Gráfica (Afeigraf) para montar a biblioteca na Vila Cruzeiro.
Além dos livros, o local tem sessões de contação de histórias, cineminha literário (exibição de filmes adaptados de livros), teatro de fantoches e lanchinho literário. Para dar conta de tantas atividades, César Júnior também está treinando dois monitores.
O marceneiro Edmilson de Oliveira Feitosa, 57, que indicou a César Júnior o local onde foi montada a biblioteca, diz que gostaria de ter conhecido uma iniciativa como essa na infância.
Feitosa lembra que, aos 14 anos, procurou por conta própria um colégio e concluiu o ensino fundamental.
“Não tive a chance de estudar”, conta. “Meu pai era analfabeto, e minha mãe mal sabia assinar o nome. É muito bonito o trabalho do Júnior e muito bom para a criançada.”
Em 2008, César Júnior recebeu o Prêmio Faz Diferença, do jornal O Globo. A premiação homenageia cidadãos cujo trabalho ajuda a melhorar o país.
Realizado com a publicação do primeiro livro e a instalação da biblioteca, o “Livreiro do Alemão”, como ficou conhecido, tem planos ainda mais ousados para o futuro.
“Quero formar não só leitores, mas pensadores na favela”, antecipa. “Vamos formar uma família de educadores.”
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