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RIO DE JANEIRO, Brasil – Um desavisado que chegue à Unidade Municipal de Reinserção Social Rio Acolhedor, no bairro de Paciência, Zona Oeste da cidade, pode pensar que está entrando em um clube de lazer.
No terreno de 9 hectares, com 5,5 mil metros quadrados de área construída, há dois campos de futebol, quadra poliesportiva coberta e duas piscinas, sendo uma semi-olímpica. O local oferece aulas de alfabetização e ensino regular, iniciação à informática e capacitação profissional na área da construção civil.
Há também 7 atividades esportivas: ioga, ginástica, futebol, vôlei, futebol de salão, alongamento e artes marciais. A partir de janeiro, duas novas atividades serão incluídas na lista, natação e hidroginástica.
Abrigos com instalações mais atraentes e que oferecem diversos serviços são a mais nova aposta da Secretaria de Assistência Social da Prefeitura do Rio para reinserir socialmente moradores de ruas.
A Secretaria de Assistência Social recebeu do governo do estado dois terrenos, nos bairros de Irajá e Jacarepaguá, onde serão construídos abrigos seguindo o modelo de Paciência. Os investimentos nas obras, que ainda não têm previsão de conclusão, são de R$ 9 milhões.
“Queríamos acabar com o conceito de exclusão oferecendo oportunidades e colocando tudo o que for possível à disposição do abrigado”, afirma Paulo César Nascimento, diretor do abrigo de Paciência, inaugurado em outubro de 2010.
O abrigo oferece 422 vagas – 350 estão ocupadas.
Um psicólogo para os funcionários
A equipe de trabalho é formada por 152 funcionários, entre psicólogos – um deles apenas para o atendimento dos funcionários por conta do estresse do trabalho –, assistentes sociais, educadores, pedagogos, fonoaudiólogos, professores de educação física, enfermeiras e nutricionistas.
“Temos que criar atrativos para que a clientela queira ficar porque abrigo não é presídio”, diz Nascimento. “O morador de rua pode aceitar vir num primeiro momento. Mas, se quiser, faz um lanche e vai embora.”
O abrigo tem ambulatório, biblioteca, sala de TV e auditório, entre outras instalações.
Os usuários de drogas podem participar de grupos de convivência, como o Alcoólicos Anônimos.
Em um posto no local, é possível tirar documentos e se inscrever em programas sociais, como o “De Volta à Terra Natal”, que viabiliza o retorno à cidade de origem.
“A permanência deve ser temporária, mas não se pode impor limite de tempo para a reconstrução do vínculo familiar, afetivo e social”, diz Nascimento. “A própria condição do abrigado é que vai definir o tempo de permanência.”
Terceira Idade: encontros semanais
Gerson Nepomuceno, 61 anos, encontrou no abrigo uma oportunidade para mudar de vida. Toda sexta-feira de manhã, ele participa dos encontros do grupo da terceira idade, que são comandados pela dinamizadora, fonoaudióloga e psicomotricista Adriana Faria Coutinho.
“Queria sair das ruas. Pensei até em alugar um quarto, mas não tinha dinheiro suficiente”, conta Nepomuceno, que foi rápido ao escolher a mensagem do dia, no meio de uma dezena de papéis com mensagens positivas: “Não tenho tudo o que amo, mas amo tudo o que tenho”.
O coordenador geral do Rio Acolhedor, Ademir Treichel, que fez carreira como administrador de empresas e no mercado financeiro, diz que levou ao projeto uma visão empresarial.
“Colocamos regras. Os abrigados precisam de limites e querem isso”, afirma o coordenador.
Treichel foi quem escolheu o local, que fica a cerca de 70 km do centro da cidade. “A longa distância e o valor do transporte desencorajam os abrigados a ficar indo e voltando e eles acabam tendo um comprometimento maior com o abrigo”, diz.
No início, a maior dificuldade foi ganhar a confiança da vizinhança, segundo o coordenador.
“Ninguém quer presídio, feira livre, cemitério ou abrigo perto de casa”, diz Treichel.
Crianças da vizinhança fazem judô no abrigo
O coordenador promoveu várias reuniões com os moradores e, para ajudar na aproximação, abriu as instalações do abrigo para que dois professores voluntários de judô dessem aulas gratuitas às crianças da comunidade.
“Os pais costumavam trazer seus filhos segurando pelas mãos e andando rápido”, conta Treichel. “Hoje, estão tão à vontade que deixam as crianças na porta e vão embora.”
Treichel explica que a política do abrigo é ver a diferença no coletivo, atendendo cada pessoa individualmente.
Foi essa mentalidade que o levou a pedir a inclusão do abrigado Aramis Fabiano Borges, 25, que é deficiente físico, num time de futebol da Soccerex, feira internacional de negócios do esporte realizada no Rio.
Treichel também comprou o uniforme usado por Borges no jogo, que contou com a participação de Cafu, ex-capitão da Seleção Brasileira.
“Já fui do time da Associação Niteroiense dos Deficientes Físicos (Andef)”, orgulha-se Borges, que está há cinco meses no abrigo.
Maior desafio: reatar vínculos familiares
Reatar os vínculos familiares é o grande desafio do projeto, de acordo com Paulo César Nascimento, diretor do abrigo.
Maria de Lourdes da Silva Carvalho, 60 anos, há seis meses no abrigo, diz que ficava nas ruas mesmo tendo lugar para ficar na casa de um parente. “Mas não conseguia me adaptar e voltava para as ruas”, lembra.
Nascimento explica que os profissionais trabalham não só com os abrigados, mas também com suas famílias. O diretor diz que a saída de casa pode acontecer em função de um trauma, mas também por conta de vício ou má conduta.
“Por isso, achamos importante ensinar regras de higiene e convivência para que o abrigado possa voltar para casa em condição melhores”, explica Nascimento.
Os dados sobre os resultados dos trabalhos do Rio Acolhedor ainda estão sendo coletados, mas, para o diretor Paulo César Nascimento, os avanços são visíveis.
“Tivemos muita inserção familiar e pessoas empregadas”, diz Nascimento. “Alguns passam aqui agora só para agradecer.”
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