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2012-05-29

São Paulo: berço do samba

Por Thiago Borges para Infosurhoy.com – 29/05/2012

Nascido nas fazendas do interior, o samba paulista se fortalece em comunidades organizadas na periferia da capital.

TAMANHO DO TEXTO
Criado em 2005 por um grupo de 12 amigos, o Pagode da 27 reúne 300 pessoas aos domingos em uma rua do Grajaú, distrito de São Paulo. Existem ao menos 40 comunidades de samba como essa pela cidade. (Thiago Borges para Infosurhoy.com)

Criado em 2005 por um grupo de 12 amigos, o Pagode da 27 reúne 300 pessoas aos domingos em uma rua do Grajaú, distrito de São Paulo. Existem ao menos 40 comunidades de samba como essa pela cidade. (Thiago Borges para Infosurhoy.com)

SÃO PAULO, Brasil – Em 1959, o poeta e compositor Vinicius de Moraes sentenciou: a maior cidade do país é o túmulo do samba.

Se ainda estivesse vivo, o autor do grande sucesso da bossa nova “Garota de Ipanema” – que compôs com o amigo Tom Jobim – teria que rever sua opinião.

São Paulo tem 78 escolas de samba e sete grupos organizados pela Prefeitura, de acordo com o Censo do Carnaval realizado anualmente pela SPTuris, a empresa municipal de turismo e eventos.

Em 1914, moradores do bairro da Barra Funda já se reuniam para sambar, segundo o músico e pesquisador do assunto T. Kaçula.

O movimento depois foi se expandindo para as regiões de Casa Verde, Parque Peruche e Vila Matilde, lares de escolas de samba tradicionais da cidade

No Bixiga, onde fica a popular escola de samba Vai-Vai, cresceu o descendente de italianos Adoniran Barbosa, compositor de clássicos como “Trem das Onze” e “Samba do Arnesto”.

A metrópole também rendeu sambistas do porte de Eduardo Gudin, Paulo Vanzolini e Toquinho – esse último acabou se tornou parceiro musical de Vinicius na década de 70.

Mas as raízes do samba paulista são ainda anteriores ao século passado.

Há registros de rodas de samba realizadas desde 1808 por escravos negros onde hoje fica Pirapora de Bom Jesus, município considerado o berço do ritmo no estado de São Paulo.

O samba paulista nasceu rural, nas lavouras de café. Já o carioca foi influenciado pela vida urbana da antiga capital nacional. E o baiano teve influência dos terreiros de candomblé.

“Além disso, a formação do samba paulista está bastante enraizada nas manifestações culturais de matrizes africanas, como o jongo no Vale do Paraíba samba de lenço no Vale do Ribeira”, completa T. Kaçula. “O samba paulista é um dos mais importantes elementos de resistência cultural da matriz africana no Brasil.”

Rodas comunitárias

Além das escolas de samba convencionais e dos blocos carnavalescos, existem ao menos 40 comunidades de samba em bairros periféricos da capital paulista, segundo levantamento realizado por T. Kaçula. No interior, são 36 comunidades do gênero.

“O papel sociocultural que essas comunidades cumprem é impactante na reorganização dos espaços sociais ociosos”, avalia Kaçula. “Um dos fatores que contribuiu bastante para o fortalecimento dessas comunidades é a ausência do poder público nas áreas de cultura e educação.”

Criado em 2005 por um grupo de amigos do Grajaú, distrito no extremo Sul de São Paulo, o Pagode da 27 é um exemplo da atuação sócio-cultural de comunidades via samba.

O grupo arrecada alimentos para uma instituição local e mantém uma oficina de iniciação musical para crianças. Mas a intenção principal é levar às ruas clássicos consagrados por nomes como a cantora Clara Nunes e o compositor Roberto Riberti

Todos os domingos, cerca de 300 pessoas se reúnem em torno dos 12 integrantes do grupo, que tocam no meio da rua e de graça, pois vivem de outros projetos musicais.

Presença garantida, o marceneiro Wilker do Nascimento, de 20 anos, frequenta o Pagode da 27 desde que o grupo foi criado. Casado com Jessica Rodrigues, 20, a roda de samba é um dos primeiros locais que pretende apresentar à filha Nicolly Victoria, que nasce em julho.

Moradora do município vizinho de Embu-Guaçu, a manicure Edileuza Moura de Sousa, 32, viaja 2h30 para chegar ao Grajaú.

“A comunidade acolhe a gente”, diz Edileuza, cujos maiores ídolos são o grupo Fundo de Quintal e os cantores Arlindo Cruz e Almir Guinetto. “Mas eles aqui não deixam a desejar em relação a nenhum grupo famoso.”

Fã do Pagode da 27 desde 2008, todos os domingos o analista de suporte Daniel Aparecido de Souza, 36, leva algum amigo ou familiar ao samba. Além das canções famosas, ele aprecia as novas composições do grupo.

“Uma coisa bacana que acontece é trazer à tona sambas guardados por novos compositores”, corrobora Jefferson Santiago, também compositor e percussionista do Pagode da 27. “Hoje alguns sambistas vêm até aqui para escolher músicas novas para gravar.”

O Pagode da 27 também virou palco para sambistas renomados, como Leci Brandão e Jorginho da Cuíca, além dos rappers Criolo e Rappin Hood.

Berço do samba

Fundada em 2000 no bairro de Santo Amaro, a Comunidade Samba da Vela sempre teve como objetivo revelar novos talentos.

Em 12 anos, mais de 100 compositores passaram pelo Samba da Vela, onde 1.500 músicas inéditas foram cantadas.

“Os compositores vêm de todos os cantos da cidade, do interior, do litoral...”, explica o presidente da comunidade, José Alfredo Miranda, o Paqüera. “Qualquer pessoa que queira mostrar sua música, pode vir.”

Os encontros promovidos pelo Samba da Vela são um termômetro para medir a aceitação do público, diz Andrezinho Paraisópolis, que já compôs mais de 60 canções. Uma delas, “Bom Malandro”, vai compor o segundo disco do Samba da Vela, que contará com a participação de intérpretes como Martinho da Vila, Netinho de Paula e Emicida.

Artistas conhecidos, como Jair Rodrigues e Beth Carvalho, já buscaram músicas dos compositores locais para regravar.

Morador da zona Oeste da cidade, o músico Fellipe Arcanjo, 26, foi recentemente à Samba da Vela pela primeira vez.

“Estar aqui é como ter uma aula de samba, estou saindo de alma lavada”, diz ele, que trabalha tocando em bares da cidade. “Me arrependo de não ter vindo antes.”

Todas as segundas-feiras à noite, cerca de 150 pessoas fazem o mesmo que Arcanjo.

O público se senta em volta de uma vela acesa, que determina a duração do encontro.

A música só acaba quando a chama se apaga.

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