Você gostaria de fazer do português o idioma padrão deste site?
2010-05-28

Programa nuclear brasileiro retomado depois de 20 anos

Por Danielle Melo para Infosurhoy.com — 28/05/2010

Governo pretende construir pelo menos cinco novas usinas até 2030

TAMANHO DO TEXTO
Angra I (direita) e Angra II são as únicas usinas nucleares em operação, mas o governo brasileiro pretende construir pelo menos mais cinco nos próximos vinte anos. (Vanderlei Almeida/AFP/Getty Images)

Angra I (direita) e Angra II são as únicas usinas nucleares em operação, mas o governo brasileiro pretende construir pelo menos mais cinco nos próximos vinte anos. (Vanderlei Almeida/AFP/Getty Images)

RIO DE JANEIRO, Brasil – Depois de duas décadas sem qualquer intenção de tornar o país uma potência nuclear, o governo brasileiro agora pretende construir pelo menos cinco usinas nucleares nos próximos 20 anos, aumentando para 7.400 megawatts (MW) a geração desse tipo de energia do país.

O maior país da América do Sul tem duas usinas nucleares – Angra I e Angra II, ambas em Angra dos Reis, no litoral do estado do Rio de Janeiro – que juntas podem produzir 2.007 MW, mas só respondem por 3% do consumo total de energia elétrica do país.

Dos cinco novos projetos, um já está em execução: Angra III, que também será erguida no estado do Rio e teve suas obras retomadas no fim de dezembro passado. Com capacidade de 1.405 MW, deve entrar em operação em 2014, marcando a retomada do Programa Nuclear Brasileiro.

Em 1986, diante da tragédia de Chernobyl, Angra III teve suas obras suspensas. Além do temor de um novo acidente, o governo brasileiro enfrentava dificuldades financeiras, tornando o programa nuclear inviável.

Angra II também quase foi inviabilizada pela escassez de recursos públicos. Foram duas décadas entre o início da construção, em 1981, e sua inauguração, em 2001.

Mas o ritmo em que o país cresce hoje é outro. E mais crescimento significa maior demanda energética.

O Plano Nacional de Energia (PNE-2030), em que o governo se baseia para formular sua estratégia de expansão de oferta energética até 2030, prevê crescimento médio de 4,1% ao ano da economia brasileira no período.

Assim, o PNE aponta a necessidade ao menos quatro usinas nucleares, com capacidade de geração de 1.000 MW cada, até 2030. Angra III não entra no cálculo, pois já está em obras.

O governo também já decidiu que duas das novas usinas serão no Nordeste, embora o local exato ainda não tenha sido definido. Os estados de Sergipe, Bahia, Alagoas e Pernambuco já manifestaram interesse.

Os governadores de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), e da Bahia, Jaques Wagner (PT), chegaram a propor que se construam as centrais no “Polígono da Maconha”, área na divisa entre os dois estados onde a droga é ilegalmente produzida, oferecendo uma alternativa de emprego e renda aos moradores da região.

Mas todos os projetos dependem de aprovação do Congresso Nacional.

As outras duas usinas serão no Sudeste, no litoral do Espírito Santo ou do Rio de Janeiro.

Atualmente 70% da eletricidade consumida no Brasil vem de hidrelétricas, uma fonte limpa, porém sujeita ao humor do clima.

A meta do governo é conciliar a energia das águas com outras fontes que possam assegurar o abastecimento em anos de poucas chuvas.

Essa característica do sistema elétrico brasileiro se tornará mais evidente daqui para frente, quando se inicia o ciclo de construção das grandes hidrelétricas na Região Amazônica.

Essas usinas terão reservatórios reduzidos, de modo a inundar uma área menor de floresta, o que as torna ainda mais dependentes das chuvas.

“É necessário ter-se uma base de energia firme que garanta a continuidade do suprimento de forma independente da sazonalidade intrínseca às energias renováveis”, diz Leonam dos Santos Guimarães, assistente da presidência da Eletronuclear, estatal responsável pela construção e operação das usinas nucleares.

Os contrários à energia nuclear afirmam que o Brasil poderia ampliar o uso da energia de biomassa e da energia eólica, uma vez que os períodos de cultivo de cana-de-açúcar no Sudeste e de fortes ventos no Nordeste coincidem com a escassez de chuvas nessas regiões.

Mas Guimarães é taxativo: “Quanto maior a participação das renováveis, mais importante torna-se a complementação térmica, em que a energia nuclear é fundamental, pois está disponível o ano todo”.

Outro aspecto da energia nuclear salientado por seus defensores é o rótulo de energia limpa.

Estudos mostram que, se consideradas todas as etapas da produção – da extração do urânio à fabricação dos reatores usados na geração de energia – a nuclear é a que menos emite gás carbônico.

“Na hidrelétrica há decomposição de matéria orgânica no alagamento de grandes áreas, o que acaba levando à emissão de CO2”, explica o especialista em energia nuclear Aquilino Senra, da Coppe/UFRJ. “Na eólica, o processo de fabricação das pás com que se move o vento é muito poluente. E, na solar, emite-se CO2 para produzir coletores solares e baterias.”

Curiosamente, a feroz oposição à retomada do Programa Nuclear Brasileiro vem de um grupo ambientalista, o Greenpeace. Foi justamente numa manifestação contra o uso da energia nuclear, em frente à Angra 1, que o grupo inaugurou sua atividade no Brasil, em 1992.

Além de contestar a afirmação de que a energia nuclear emite menos CO2 que outras fontes alternativas, Andre Amaral, coordenador da campanha nuclear do Greenpeace, diz que ela também está perdendo sua vantagem econômica sobre as demais. O preço médio do megawatt-hora de energia eólica no último leilão de energia feito no Brasil em 2009 ficou em R$ 148, enquanto a projeção do preço do megawatt-hora de Angra 3 está acima de R$ 200, de acordo com estudo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) citado por Amaral.

O destino dos rejeitos radioativos também preocupa o especialista do Greenpeace. Isso porque não há no Brasil – nem em qualquer lugar do mundo – depósitos definitivos para esses resíduos.

“Teríamos que construir depósitos para armazenar resíduos durante milhares de anos”, diz. “É algo que transcende a temporalidade humana. Não conseguimos pensar nessa escala de tempo. Há, portanto, um grave problema de segurança.”

Outro obstáculo é o preço dos reatores. Estima-se que cada usina de 1.000 MW vá custar aos cofres públicos cerca de US$ 4 bilhões.

Para viabilizar os investimentos, o governo avalia alterar a legislação para permitir que o setor privado tenha participação majoritária nos projetos. Uma proposta nesse sentido, de autoria do deputado Alfredo Kaefer (PSDB -PR), já está tramitando no Congresso. A Constituição estabelece que a União detém o monopólio sobre a construção e operação de reatores nucleares para fins de geração de energia elétrica.

Você gostou desta reportagem?

1Rating_no

Incluir seu comentário

Pesquisa
Você considera o crime organizado uma ameaça à estabilidade em seu país?
Ver resultados