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2010-08-06

Irã rejeita proposta de Lula de dar asilo à acusada de adultério

Por Nelza Oliveira para Infosurhoy.com—06/08/2010

Infidelidade feminina é considerada crime punível com a pena de morte pela lei islâmica do Irã.

TAMANHO DO TEXTO
Exilados iranianos em Berlim, na Alemanha, protestam contram o possível apedrejamento de Sakineh Mohammadi Ashtiani sob a alegação de ter cometido adultério no Irã. (Sean Gallup/Getty Images)

Exilados iranianos em Berlim, na Alemanha, protestam contram o possível apedrejamento de Sakineh Mohammadi Ashtiani sob a alegação de ter cometido adultério no Irã. (Sean Gallup/Getty Images)

RIO DE JANEIRO, Brasil – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse em 31 de julho que poderia dar asilo a Sakineh Mohammadi Ashtiani, mulher iraniana condenada à morte por adultério.

A infidelidade feminina é considerada crime punível com a pena de morte pela lei islâmica do Irã, desde a Revolução de 1979.

“Se minha amizade e o respeito que tenho pelo presidente do Irã e pelo povo iraniano valerem de algo, se esta mulher causa mal-estar, poderíamos recebê-la no Brasil", disse Lula durante um comício da campanha eleitoral da candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff, em Curitiba.

Porém, dias antes das declarações em Curitiba, Lula afirmou que não se envolveria na controvérsia acerca de Ashtiani e rejeitou os apelos das organizações de direitos humanos de usar suas relações de amizade com Ahmadinejad para salvar a vida da mulher.

“Juridicamente falando, esse convite não tem fundamento", diz Gian Carlos Moreira Ferreira, professor de Relações Internacionais na Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio de Janeiro (ESPM-RJ). “Não é um caso que se preste a asilo político. O asilo político é para quem está sendo perseguido ou condenado em seu próprio país por crimes políticos, questões de sexo ou raça, ou por crenças religiosas. O adultério é tratado como crime comum no Irã.”

Segundo Ferreira, o convite de Lula poderia ser uma simples tentativa de amenizar possíveis críticas a suas relações de amizade com o Irã, o que impactaria a decisão dos eleitores nas eleições presidenciais de outubro.

“Lula sempre tem um posicionamento ambíguo, com um discurso para cada platéia”, afirma Ferreira. “Logo após o convite, ele voltou a declarar que não tinha nenhuma crítica nem questão com relação ao respeito do Irã aos direitos humanos.”

A sentença imposta a Ashtiani, 43 anos, suscitou manifestações de organizações internacionais de direitos humanos e numerosos protestos no mundo inteiro.

Em 2006, Ashtiani levou 99 chibatadas pelas "relações ilícitas" que tivera com dois homens depois de enviuvar, o que é considerado adultério segundo as leis islâmeicas, relatou a Anistia Internacional. A organização registrou 126 execuções de 1º de janeiro a 6 de junho no Irã.

O Irã afirma, contudo, que Ashtiani não cometeu só adultério, mas também é suspeita de homicídio.

O site iraniano Jahan News relatou que Ashtiani fora condenada pela morte do marido, mas os juízes não haviam liberado essa informação para a imprensa porque os detalhes do assassinato eram "horríveis demais", informou o New York Times.

Em julho, um tribunal iraniano adiou a decisão final do caso para decidir se Ashtiani deveria ser enforcada ou apedrejada.

Ramin Mehmanparast, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, disse em 3 de agosto que Lula é "uma pessoa muito humana e emotiva, que provavelmente não recebeu informações suficientes sobre o caso", segundo a The Associated Press.

"O que podemos fazer é fornecer a ele (Lula) os detalhes do caso desta pessoa que cometeu um crime, para que possa entendê-lo", disse Mehmanparast, segundo a The Associated Press.

Lula negou ter pedido asilo político para Ashtiani durante uma entrevista coletiva concedida na 39ª Reunião de Cúpula do Mercosul em San Juan, na Argentina, em 3 de agosto, segundo a imprensa brasileira.

Lula declarou que seu pedido foi uma tentativa de salvar a vida da iraniana por motivos humanitários.

“Eu estava num comício em Curitiba com a minha candidata, que é mulher, e tinha visto na véspera uma foto - não sei se editada ou não - de uma mulher enterrada até o pescoço para ser apedrejada", disse Lula aos repórteres. "Eu sou cristão, só Deus tem o direito de dar a vida e tem o direito de tirá-la.”

Porém Lula disse que tem "grande respeito" e uma relação de "amizade" com o Irã, segundo a mídia.

A administração de Lula e o Irã se aproximaram nos últimos anos.

O Brasil é o oitavo maior exportador para o Irã. As exportações brasileiras para o Irã totalizaram US$ 1,2 bilhão no ano passado, 7,5% mais que em 2008, segundo o Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

Este ano Lula foi à Teerã para intermediar um acordo de transferência de urânio enriquecido do Irã para a Turquia. Sua meta era ajudar a convencer a comunidade internacional a dar apoio ao programa nuclear do Irã, conforme informou a BBC.

Mas algumas posturas de Lula na política internacional estão gerando controvérsias, diz Ferreira. Sua intimidade com governos considerados antidemocráticos como Irã, Cuba e Venezuela tem sido criticada.

"Ao mesmo tempo em que o Brasil cresce e é economicamente respeitado, Lula caminha para trás em temas diplomáticos", opina Ferreira.

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