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2010-08-23

Liberdade de imprensa ameaçada na América Latina

Por Diana Yegres para Infosurhoy.com—23/08/2010

Governo e crime organizado dificultam trabalho dos jornalistas.

TAMANHO DO TEXTO
A edição de 18 de agosto do jornal venezuelano  exibiu um espaço em branco com a palavra "Censurado" em vermelho na primeira página e no seu interior. (Juan Barreto/AFP/Getty Images)

A edição de 18 de agosto do jornal venezuelano exibiu um espaço em branco com a palavra "Censurado" em vermelho na primeira página e no seu interior. (Juan Barreto/AFP/Getty Images)

CARACAS, Venezuela – Ataques a jornalistas e a meios de comunicação na América Latina aumentam à medida que gangues e autoridades governamentais exercem pressão sobre a mídia independente da região.

O crime organizado costumava "operar às escuras, mas agora quer publicidade e domínio territorial, e usa os meios de comunicação em massa para esse fim", informou Frank La Rue, Relator Especial para a Liberdade de Opinião e Expressão das Nações Unidas, durante visita à cidade de Juárez, no México, este mês.

Pelo menos 27 jornalistas foram mortos por narcotraficantes desde 2007 em Ciudad Juárez, por causa de seu trabalho, de acordo com o Comitê para a Proteção de Jornalistas, uma ONG com sede na cidade de Nova York.

"As gangues criminosas têm uma política de informação", revelou La Rue. "Elas não usam apenas o poder da força física, mas o poder de comunicação para enviar mensagens através da mídia sobre o território que controlam e para sequestrar e intimidar jornalistas."

Em El Salvador, supostos membros da violenta gangue Mara 18 assassinaram, em setembro de 2009, o repórter fotográfico francês Christian Poveda, que filmava o documentário, "La Vida Loca", sobre o modo de vida das gangues. A polícia prendeu 10 supostos membros da quadrilha ligados ao assassinato de Poveda, segundo noticiou o jornal online salvadorenho Contrapunto.

Na Argentina, o Grupo Clarín, dono do jornal de mesmo nome em Buenos Aires, é alvo frequente de ataques verbais da presidente Cristina Fernández de Kirchner e seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner.

Rixa antiga

No mais recente capítulo dessa briga, o governo cancelou o serviço de provedor de internet Fibertel, do Grupo Clarín, em 20 de agosto, afirmando que a fusão da empresa com a Cablevisión SA era ilegal, segundo reportagem da Agencia Mercosur. O Grupo Clarín acusou o governo de agir "de maneira totalitária", segundo comunicado.

Na Colômbia, onde diversos jornalistas foram forçados a se esconder ou a se exilar pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), Exército de Libertação Nacional (ELN) e narcotraficantes, um carro-bomba explodiu em frente ao escritório de Bogotá da Rádio Caracol, em 12 de agosto, danificando seriamente a estrutura do prédio, que também abriga o escritório da agência de notícias espanhola EFE.

O ataque visava a estação de rádio, revelou o procurador-geral colombiano, Guillermo Mendoza, à Caracol.

"Este é um ato de intimidação contra a mídia", sintetizou.

Mais que mil palavras

Uma fotografia de corpos amontoados no necrotério Monte Bello, em Caracas, foi publicada no jornal venezuelano El Nacional, em 13 de agosto, e reimpressa no dia seguinte, em outro jornal de Caracas, o Tal Cual. A foto fez com que um tribunal venezuelano ordenasse aos jornais de todo o país que parassem de publicar imagens de violência durante um mês.

"A intenção do ... jornal de oposição El Nacional, ao publicar em sua primeira página uma foto de cadáveres no interior do necrotério de Bello Monte, foi de desestabilizar", disse Litbell Díaz, presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, que pediu, em 17 de agosto, ao procurador geral da República, que investigasse o El Nacional.

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, chamou a foto de "pornográfica". Mas os seus partidários disseram que a situação do necrotério é terrível.

"É realmente revoltante o comércio desprezível que a mídia faz com a tragédia humana, e o desinteresse do Estado em corrigir o que está acontecendo [no necrotério]", escreveu o colunista conhecido como Marciano no editorial para o diário estatal Vea, em 23 de agosto.

Eleazar Díaz Rangel, diretor da jornal venezuelano pró-governo Últimas Noticias, disse que a ordem judicial foi "absurda e sem sentido."

"Pela primeira vez, desde 1999, o governo venezuelano dá motivo para ser acusado de restringir a liberdade de expressão", declarou Díaz Rangel.

Marcelino Bisbal, pesquisador venezuelano de comunicações, disse que a decisão do tribunal foi "interessante".

"Que coincidência que estejamos em campanha eleitoral" para o pleito de 26 de setembro, enfatizou.

Catalina Botero, Relatora Especial para a Liberdade de Expressão da Organização dos Estados Americanos (OEA) e La Rue disseram que a decisão do tribunal "constitui um ato de censura prévia, que compromete seriamente o direito à liberdade de expressão neste país."

"A OEA e os relatores da ONU para a liberdade de expressão fazem um apelo urgente às autoridades venezuelanas para que revejam as decisões adotadas contra à mídia e que restabeleçam todas as garantias para o exercício da liberdade de expressão", disse a OEA em comunicado.

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4 comentários

  1. Salomon 08/22/2012

    Um exemplo de imprensa paga nos EUA para cobrir o julgamento dos cinco cubanos antiterroristas: o caso dos 5. Quem decidiu pagar, pagou, tomou dinheiro ou cobriu os pagamentos neste programa secreto, violou a integridade do processo, assinala o documento de 82 páginas. Garbus explicou que se a juíza Joan Lenard, que sempre presidiu o caso "dos cinco", decidisse anular a sentença contra Hernández Nordelo, o ideal seria então pôr em evidência a "operação secreta e ilegal" de Washington para difamar "os cinco" e influenciar o júri que os condenou em Miami. Alguns dos meios de comunicação que participaram como "agentes pagos" foram o jornal "El Nuevo Herald", "The Miami Herald" e o "Diario de las Américas", assim como as conhecidas Radio/TV Martí e WAQI (Radio Mambí), entre outros. Os jornalistas receberam pelo menos 3.000 dólares (2.415 euros) por suas publicações contra "os cinco". ' Trata-se de grandes somas de dinheiro, dia após dia, ano após ano, traduzidas em mais de mil artigos e informações difundidas, manipulação que se faz incompreensível e carece de precedentes\', destacou Garbus. Com essas ações, explica a defesa, \'o conceito fundamental de um julgamento justo foi negado, já que o governo exerceu uma influência constante intolerável que é um erro estrutural\'. \'É surpreendente ver como o promotor minimiza o efeito da palavra impressa e falada. É como se os fundadores desse governo, a história dos EUA, a Constituição e a Primeira Emenda nunca tivessem existido\', indica o “depoimento”. ISSO é prova suficiente das coisas que o governo dos EUA encobre e o que diz Obama? NADA

  2. Santiago Vargas Casco 03/07/2012

    Em Honduras os meios de comunicação de rádio, televisão e imprensa escrita que têm mais capacidade de cobertura instalada territorialmente pertencem a grupos financeiros pequenos, mas poderosos, que além de controlar a imprensa são os que controlam os partidos políticos (Nacional e Liberal) que até agora detêm o poder político do Estado. Essas mídias oligárquicas (imprensa escrita, La Tribuna, El Heraldo, La Prensa, Tiempo e as redes de televisão e rádio como HRN, Audiovideo etc.), usam a suposta liberdade de expressão para chantagear os governos atuais e atingir objetivos diferentes, nas principalmente monetários e econômicos.

  3. Alfredo 08/24/2010

    A informação sobre a Argentina é inexata. O governo não ataca a liberdade de imprensa. A imprensa em geral está nas mãos do monopólio do grupo Clarín que possui mais de 200 meios em todo o país (entre gráfico e televisivo). É o contrário do que todos vocês - parece que do mesmo jeito que o Clarín e cia. - manifestam: este grupo é contra a informação verdadeira, ataca o governo e desinforma a população. Seria bom que vocês se informassem por outros meios que não pertençam a esse grupo maldito. E quanto à Fibertel, os donos da Cablevisón fizeram um esquema contra o estado e aos usuários: se apoderaram ilegalmente da licença da Fibertel, que já não existe mais.

  4. gabo 08/24/2010

    É um fenômeno que está dominando há um bom tempo todo o continente latino americano, e mais preocupante ainda é que são os governos atuais os que mais pressionam a imprensa, aqui na COLÔMBIA, por exemplo, o assunto dos falsos positivos da administração Uribe é pouco conhecido já que a mídia tem sido muito complacente com esse assunto e as notícias que tem a ver com isso são muito curtas, além disso falam como se não fosse algo tão grave... Não são capazes de dizer que depois de 8 anos de governo Uribe há mais de 2 mil pessoas desaparecidas na Colômbia pelas forças obscuras do Estado.

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