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2010-10-15

Resgate de mineiros foi um teste de fé e compromisso para o sargento Roberto Ríos

Por Marta Escurra para Infosurhoy.com – 15/10/2010

Resgatista com treinamento no exterior relembra experiência "impagável".

TAMANHO DO TEXTO
O sargento do Exército Roberto Ríos Seguel, 34 anos, prestou assistência médica aos 33 mineiros soterrados. (Marta Escurra para Infosurhoy.com)

O sargento do Exército Roberto Ríos Seguel, 34 anos, prestou assistência médica aos 33 mineiros soterrados. (Marta Escurra para Infosurhoy.com)

COPIAPÓ, Chile – O sargento do Exército Roberto Ríos Seguel assistia as notícias com sua esposa Ivette, na cidade de Quilpué, região central do Chile, quando soube dos 33 mineiros presos na mina de ouro e cobre San José, em Copiapó.

Mas ele jamais poderia imaginar que seria um dos resgatistas que passaria 25 horas a cerca de 800 metros de profundidade, ajudando no içamento de cada um dos 33 trabalhadores à superfície.

Ríos, de 34 anos, que já havia trabalhado como enfermeiro militar, recebeu treinamento no exterior para fuga de espaços confinados, mergulho tático e sobrevivência sob condições extremas.

No entanto, Ríos afirmou ter visto a culminação de todo o seu treinamento profissional quando Florencio Ávalos chegou à superfície na cápsula Fênix 2.

“Agora aprendi sobre minas”, disse ele.

Em entrevista exclusiva para o Infosurhoy.com, o pai de Roberto Jr., 3 anos, e das gêmeas de 7 anos Paz Alexandra e Elizabeth de los Ángeles, fala sobre seu trabalho, sua vida e seu papel no resgate sem precedentes de 13 de outubro.

Infosurhoy.com: O que passou em sua cabeça no momento em que a porta da cápsula Fênix 2 foi fechada com você dentro pronto para descer?

Sargento Ríos: A verdade é que sou cristão. Dei graças a Deus por tudo o que estou vivendo agora, por ter a oportunidade de participar [do resgate dos 33 mineiros]. Tive fé no Senhor, desci orando. Lembrei-me de muitas coisas, da minha família e também da dos mineiros. Desci muito concentrado. Porque já dentro da Fênix 2 tivemos que pará-la duas vezes. A primeira porque a porta emperrou e depois houve outra falha. Na terceira tentativa me perguntaram se eu estava pronto para descer e eu disse que estava pronto há muito tempo.

Infosurhoy.com: Quando você foi convocado para o resgate?

Sargento Ríos: Há umas três semanas. Recebi uma mensagem em que me perguntavam se eu gostaria de participar do grupo de resgate. Aceitei imediatamente. Não tive dúvidas em participar e aí foi só alegria. Você fica contente de poder participar desse tipo de missão.

Infosurhoy.com: Quando você chegou à mina?

Sargento Ríos: Há uns dez dias. A partir de então, fizemos um revestimento especial, semelhante ao usado nos primeiros 50 metros do duto de resgate. Testamos esse revestimento com a Fênix 1. Fizemos muitas subidas e descidas. E aí treinamos. Apesar de contar com luz de cabeceira na cápsula, meu colega, o 1º Cabo Patricio Roblero, e eu treinamos sob escuridão absoluta, pensando na pior das situações. Então, se ficássemos sem luz, estaríamos preparados.

Infosurhoy.com: Ao descer, quem você viu primeiro?

Sargento Ríos: Na verdade, vi muitos rostos. Não lembro qual foi o primeiro, mas lembro que estavam todos muito efusivos, houve muitos abraços, muitos “Viva Chile!”, “Bem-vindo, sargento”, houve também muitos sorrisos. Então, não me lembro de um rosto em especial. Ao chegar lá embaixo, estávamos todos muito contentes, nos abraçamos.

Infosurhoy.com: Você chorou em algum momento?

Sargento Ríos: Não. Sabe quando tive muita emoção? Quando o primeiro mineiro, Florencio Ávalos, subiu e seu filhinho e sua esposa o estavam esperando na superfície. Ali foi muito emotivo. Depois, lá embaixo eu só pensava em trabalhar. Eu me apresentei aos mineiros, lhes disse qual era minha função e depois disse “agora vamos trabalhar.”

Infosurhoy.com: Especificamente, qual era sua função?

Sargento Ríos: A ideia era realizar uma verificação de pulso, pressão arterial, frequência cardíaca, tímpano, e respiração. Se o mineiro não estivesse em condições de subir, teria que estabilizá-lo e subir outro. Mas, felizmente não tive que estabilizar ninguém. Estavam muito bem de saúde, tinha alguns com histórico médico, mas não estavam mal. Então foi fácil trabalhar com eles.

Infosurhoy.com: Enquanto os mineiros subiam, o que você fazia?

Sargento Ríos: Na verdade, não tivemos tempo de socializar. Com o 1º Cabo Roblero, eu coordenei o trabalho na “zona quente”, usando termos de combate. Monitoramos as leituras da cápsula em um computador: pressão, ar, etc. Além disso, verificávamos constantemente os outros mineiros. Porque eles estavam em outro lugar, pois a área onde a cápsula Fênix 2 chegou foi a oficina, e o refúgio fica a 250 metros abaixo. Então, tínhamos que controlá-los lá, descer e subir por quase 25 horas.

Infosurhoy.com: O que você aprendeu com essa experiência?

Sargento Ríos: Pessoalmente, aprendi que para Deus nada é impossível. Na parte profissional, foi saber que se pode fazer esse tipo de coisa a 700 metros de profundidade, é uma experiência impagável.

Infosurhoy.com: O que sua esposa disse antes de você descer?

Sargento Ríos: Eu lhe disse para confiar em Deus, que ficasse tranquila e que me passasse tranquilidade. Até minhas filhas me abençoaram. Quando voltamos a nos falar, ela me disse que estava muito orgulhosa de mim. “Fiquei angustiada todo esse tempo”, disse ela. As meninas perguntavam “que horas papai vai sair?”

Infosurhoy.com: Como se sentiu enquanto subia dentro da Fênix 2 após o resgate?

Sargento Ríos: Uma felicidade tremenda. E quando restou apenas o grupo de resgatistas lá embaixo, brincamos que todos tinham ido embora lá em cima, desligado a luz e que ficara somente o operador do guindaste. Além disso, ser recebido pelo presidente da república é uma honra.

Infosurhoy.com: De quem foi a ideia da bandeira com a frase “Missão Cumprida, Chile”?

Sargento Ríos: Foi do colega de trabalho Patricio Roblero, que sugeriu que fizéssemos uma materialização do objetivo alcançado com algo e nada melhor que uma bandeira. Queríamos que o mundo visse que com Luis Urzúa na superfície, a missão estava cumprida. Se nós ficássemos presos lá embaixo, não importava.

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2 comentários

  1. camila 10/12/2011

    u.u que rapaz lindo, adoro ele

  2. Miguel Anival 10/18/2010

    Excelente artigo, pela profundidade e o humanismo que contém.

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