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2011-01-17

Rio enfrenta pior catástrofe da história do Brasil

Por Nelza Oliveira para Infosurhoy.com – 17/01/2011

Número de mortos já chega a 640, mas deve aumentar com a retirada de corpos que seguem soterrados.

TAMANHO DO TEXTO
Adriana Figueiredo Corbiseiro cuida de seu bebê de 1 mês de idade em um alojamento para os desabrigados pelas enchentes  em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, Brasil, em 15 de janeiro. (Renzo Gostoli/Austral Foto)

Adriana Figueiredo Corbiseiro cuida de seu bebê de 1 mês de idade em um alojamento para os desabrigados pelas enchentes em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, Brasil, em 15 de janeiro. (Renzo Gostoli/Austral Foto)

NOVA FRIBURGO, Brasil – Quando soube que a casa de um dos irmãos havia sido completamente destruída por um deslizamento de terra em 12 de janeiro, o trabalhador rural Isaac da Silva e os outros quatro irmãos foram diretamente para o local, onde fizeram todo o tipo de sinal para os helicópteros de socorro que sobrevoavam a área.

Mas eles não conseguiram ajuda na tentativa de encontrar vida sob a lama e os escombros.

Por conta própria, escavaram a área – e tudo o que encontraram foi morte.

Isaac e seus familiares então levaram os corpos do irmão, da mulher dele e das duas filhas do casal até uma escola próxima e lá os deixaram até que os bombeiros chegassem. O transporte para o Instituto Médico Legal (IML) foi feito apenas dois dias depois.

“Soubemos que eram tantos mortos que estavam jogando os corpos em valas”, disse Silva. “Não poderiam fazer isso com meu irmão. Ele era gente e não bicho. Trabalhou e foi bom a vida toda, merecia um enterro digno.”

Em 15 de janeiro último – três dias depois dos deslizamentos e enchentes provocados pela chuva na Região Serrana do Rio de Janeiro –, a família Silva finalmente pode sepultar dignamente seus mortos no cemitério de Nova Friburgo, uma das cidades mais atingidas pela tragédia.

Mas outras vítimas sequer tiveram esse direito. Durante o sepultamento dos Silva, caixões com corpos não identificados chegavam ao cemitério. A cidade não tinha mais como esperar a população chorar seus mortos.

Às 9h20 de 17 de janeiro, o número de óbitos era de 640, segundo balanço da secretaria estadual de Saúde e Defesa Civil.

O deslizamento que abalou a região na madrugada de 12 de janeiro já é considerado o pior da história do Brasil.

A tragédia superou a até então considerada a maior do gênero, ocorrida em Caraguatatuba, no estado de São Paulo, em 1967, deixando 436 mortes.

O IML improvisado no centro de Nova Friburgo deu três alternativas para que as pessoas reconhecessem seus entes queridos: uma listagem com o nome das vítimas fatais já reconhecidas; a exposição dos cadáveres e fotos tiradas dos corpos antes que fossem enterrados.

Até então, Nova Friburgo registrou o maior número de mortos: 294. Em Teresópolis, foram 271; em Petrópolis, 56, e, em Sumidouro, 19.

O número de desalojados chega a 7.780, e o de desabrigados já soma 6.050.

Nova Friburgo está devastada

Assim como as demais cidades mais atingidas, Nova Friburgo parece ter sofrido uma guerra.

Mesmo nas áreas não atingidas por deslizamentos, há rastros da destruição.

As ruas estão repletas de lama.

As marcas nas paredes de casas e prédios registram a altura atingida pelas devastadoras águas.

O som mais ouvido é o de sirenes. Ambulâncias, viaturas da polícia e veículos transportando doações tentam abrir caminho em meio ao caos do trânsito parado.

As áreas onde ocorreram desabamentos continuam interditadas.

O comércio segue de portas fechadas – com exceção de algumas drogarias ou supermercados. Boatos sobre a ocorrência de saques são frequentes, apesar da ostensiva presença policial.

O serviço de abastecimento de água ainda não foi completamente restabelecido. Pelo menos, já há energia elétrica na cidade, depois de três dias às escuras.

Sofrimento compartilhado nos abrigos

Os seis abrigos improvisados para hospedar os desalojados concentram relatos dramáticos de sobreviventes.

“Morreram nove pessoas da minha família: minha mãe, meu irmão, minhas sobrinhas e tios”, disse Tais Coimbra da Silva, 21 anos. “Só retiraram um corpo até agora.”

Grávida de sete meses, Tais teve que deixar sua casa, que foi interditada por risco de desabamento. No abrigo, ao lado do marido, da filha de três anos e de diversos familiares, teme pelo futuro.

“Não sei o que vamos fazer. Não sei”, repetia a jovem.

“Também perdi nove pessoas da família entre tios e primos”, disse Rita de Cássia da Silva Freitas Freiman, 28, abrigada juntamente com o marido e a filha de 10 anos. “Minha casa foi interditada, mas não caiu.”

Mas no mesmo abrigo, Adriana Figueiredo Corbiseiro, 25, dá uma lição de gratidão.

Ela agradece aos soldados do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar por ter conseguido escapar no dia anterior com o marido e os quatro filhos – o mais novo com um mês de vida.

“A gente não tinha passagem para sair e um barranco podia cair”, recordou.

Voluntários trabalham sem parar

Em meio ao sofrimento, a solidariedade também comove.

A todo instante chegam doações aos abrigos.

Exércitos de voluntários trabalham sem parar: atendem feridos, prestam cuidados a abrigados, limpam ruas e carregam caixões que chegam ao cemitério.

“Como você vai conseguir ficar em paz em casa e os próximos aqui fora, teus vizinhos, tua cidade literalmente destruída?”, justificou a artesã Rita de Cássia Vital Guerra, 42, que ajuda num dos abrigos. “Eu não consigo dormir.”

Mas, às escondidas, Rita não contém as lágrimas.

“Não posso fazer isso na frente deles”, disse, referindo-se aos desalojados. “Já estão sofrendo muito.”

Governo liberou R$ 135 milhões como parte do socorro à região

Os serviços de telefonia móvel e parte da fixa foram restabelecidos em Nova Friburgo, segundo o vice-governador do Rio, Luiz Fernando Pezão.

Pezão garantiu que o governo estadual está se empenhando para levar socorro aos locais ainda isolados, principalmente nas áreas rurais.

“Não está faltando ajuda dos governos federal e estadual”, disse. “O que nos impossibilita às vezes de chegar a algum lugar é o tempo, que deu uma piorada. Temos homens e equipamentos. Mas temos que ter essa precaução para também não arriscar a vida dos pilotos e dos soldados.”

Em 15 de janeiro, as chuvas voltaram a castigar Nova Friburgo.

Com o apoio do governo federal, foram enviados às cidades atingidas cerca de 400 equipamentos (helicópteros, tratores, escavadeiras, caminhões e ambulâncias), além de um enorme contingente de profissionais das mais diversas áreas e funções – só entre bombeiros são 858, segundo a assessoria de imprensa do governo estadual.

O Ministério da Defesa destacou 586 militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. A Força Nacional de Segurança deslocou 225 homens para a Região Serrana.

Três hospitais de campanha foram montados na região – dois pelo governo do estado, em Nova Friburgo e Teresópolis, e outro pela Marinha, em Nova Friburgo.

Em 16 de janeiro, a Força Aérea Brasileira (FAB) também começou a montar um hospital de campanha em Itaipava, no município de Petrópolis.

“Estivemos ajudando durante o terremoto no Chile, mas acho que as pessoas aqui estão chegando mais apavoradas e desesperadas psicologicamente do que lá”, disse o Capitão de Fragata, Dr. Carlos Mesquita, do hospital de campanha de Nova Friburgo.

A maior parte dos atendimentos é de pessoas com traumatismo, relatou Mesquita.

De 13 de janeiro à madrugada de 14 de janeiro, foram realizados 186 atendimentos no local, que conta com 53 profissionais de saúde.

O governo federal liberou R$ 100 milhões para a região, além de R$ 35 milhões para o pagamento de aluguel social para 5.000 famílias.

Outra medida anunciada foi o pagamento dos benefícios do programa Bolsa Família relativos aos meses de janeiro e fevereiro. Em Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis também serão repassadas a idosos e pessoas com deficiência as parcelas do Benefício de Prestação Continuada.

Desastre provocado por ocupações irregulares

O governador do Rio, Sérgio Cabral, é taxativo ao explicar as causas do desastre: as ocupações irresponsáveis e irregulares de áreas de risco.

“Teve prefeito aqui há 25 anos comemorando título de posse, como já houve em outras regiões, mas quando você faz isso em uma região serrana, montanhosa, é diferente”, declarou em 14 de janeiro, conforme divulgado por sua assessoria de imprensa.

A legislação do solo urbano e sua consequente ocupação são responsabilidades dos municípios, ressaltou Cabral. E títulos de posse concedidos sem critérios de segurança não são exclusividade da Região Serrana, mas de vários municípios do Rio e do Brasil.

Três fatores levaram à tragédia: a geologia do local, a ocupação humana e as chuvas, explicou Maurício Ehrlich, professor de geotecnia do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ).

“A tendência nas montanhas é a formação de capa de solo de pequena espessura, que satura fácil com a chuva, aumentando o peso e deflagrando o deslizamento”, completou o professor.

As chuvas na região formam o chamado microclima, acrescentou Ehrlich. As nuvens carregadas ficam aprisionadas nas montanhas e acabam caindo mais intensamente em um ponto que em outro.

As ocupações irregulares – intensificadas com a migração de mão-de-obra em busca de oportunidades em empresas instaladas na região – associadas às particularidades geográficas e climáticas, potencializaram as chances de desastres, completou Ehrlich.

“Essas áreas têm muito pouco espaço, e as pessoas acabam se instalando nas montanhas”, disse. “Antes tinha até deslizamentos, mas não tanta consequência porque não havia moradores próximos.”

Em visita a Itaipava, o governador Sérgio Cabral chegou a afirmou que a ocupação irregular era feita inclusive por ricos, já que pousadas de luxo e mansões também foram destruídas.

Erick Connolly, executivo da Icatu Holding, perdeu 11 familiares, que estavam hospedados na casa da família em Itaipava.

Em 12 de janeiro, horas antes das chuvas, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) repassou para a Secretaria Nacional de Defesa Civil (Sedec) um boletim alertando para a existência de “condições meteorológicas favoráveis à ocorrência de chuvas moderadas ou fortes”.

A Sedec repassou os dados às 13h56m daquele dia para a Secretaria Estadual de Defesa Civil, ao comando-geral do Corpo de Bombeiros do Rio e à Secretaria Especial de Ordem Pública. O aviso foi emitido por e-mail para todas as prefeituras.

Mas a população não foi comunicada.

“A cidade do Rio tem um sistema mais organizado para dar alerta, já as prefeituras não têm nada disso”, disse Ehrlich. “Elas não tinham forma de articular nada em tempo hábil.”

Na fila do IML para reconhecer o corpo da irmã e do sobrinho de 16 anos em 15 de janeiro, Marta Pedreti não conseguia esconder a revolta.

“Dizem que prefeitura, prefeito, governos, presidência, todo mundo já sabia que isso ia acontecer. Só a gente não sabia”, disse. “Podiam ter arrumado um lugar para todo mundo antes disso acontecer.”

Apenas um prefeito fez direrente: Laerte Calil de Freitas, de Areal.

Em 13 de janeiro, Freitas gravou um aviso sonoro de alerta máximo, que foi transmitido por um carro de som que atravessou cidade. Os moradores foram orientados a buscar lugar seguro.

Várias famílias de Areal deixaram suas casas. No total, são cerca de 800 desabrigados.

Mas, graças ao alerta do prefeito, Areal não teve nenhuma vítima fatal.

Clique aqui para conferir o mais recente balanço da destruição

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1 Comentário

  1. manoel silverio corrrea 02/07/2011

    bom dia. Ocorreu um acidente de trabalho comigo.No dia 17/10/2009/ tive um poblema na colunar lônbar e fiquei um ano de tratamento sendo que não teve jeito e tive que operar duas ernia de disco sendo L4/L5/ sendo que ficou mais duas para o DR.Dinizar Araujo Filho analizar. A operação ocorreu em 01/11/2010. Sendo que o DR. Dinizar me pediu uma resonancia magnetica da coluna lômbar barcial. Segundo o medico me deu um laudo que dizendo que eu fiquei com sequela... fui fazer uma pericia dia 04/02/2011 o DR perito me renegou meu laudo e nao tenho condisão de vouta o trabalho . muito obrigado manoel silverio correa abraços....

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