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2011-03-08

Liderança feminina na América Latina em alta

Por Ligia Hougland e Patricia Knebel para Infosurhoy.com—08/03/2011

Região avança na diminuição da desigualdade entre os gêneros.

TAMANHO DO TEXTO
Em 2010, 13,7% das maiores empresas do Brasil eram comandadas por mulheres. Liliana Aufiero contribuiu para aumentar os índices de altas lideranças femininas no país desde 1999, quando assumiu a presidência da Lupo. (Cortesia da Lupo)

Em 2010, 13,7% das maiores empresas do Brasil eram comandadas por mulheres. Liliana Aufiero contribuiu para aumentar os índices de altas lideranças femininas no país desde 1999, quando assumiu a presidência da Lupo. (Cortesia da Lupo)

PORTO ALEGRE, Brasil e WASHINGTON, D.C., EUA – Elas não usam terno e gravata.

Combinam postura firme com suavidade e têm capacidade diferenciada para liderar pessoas e gerenciar negócios.

As mulheres, que atualmente comandam quatro nações na América Latina – Brasil, Argentina, Costa Rica e Trinidad eTobago – também já chegaram aos altos postos hierárquicos das empresas.

No Brasil, elas já lideram o quadro executivo de 13,7% das maiores corporações. Em 2001, esse índice era de 6%, segundo o estudo “Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas e suas Ações Afirmativas”, do Instituto Ethos e Ibope Inteligência, com a participação do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) e Organização Internacional do Trabalho (OIT).

“Mesmo no nível de diretoria, onde temos um crescimento fantástico nos últimos anos, nossas projeções apontam que, só em 2035, devemos alcançar uma equivalência da participação entre o sexo feminino e o masculino”, diz Benjamin Gonçalves, coordenador da pesquisa pelo Instituto Ethos.

Esses 20 anos rumo à igualdade poderiam ser reduzidos caso as empresas apostassem em políticas efetivas para incentivar a participação das mulheres, completa Gonçalves. Mas, de 2007 a 2010, o percentual de corporações que informaram ter esses programas caiu de 20% para 10%.

Presidente da Lupo abriu trincheiras

Presidente da fabricante de meias e cuecas Lupo, a brasileira Liliana Aufiero, de 66 anos, é um exemplo das recentes conquistas femininas no mundo dos negócios na América Latina.

Nascida em Araraquara, no interior de São Paulo, ela abraçou uma carreira que há pouco tempo ainda era reduto masculino: foi a primeira mulher a passar no vestibular para o curso de Engenharia Civil da USP de São Carlos, em 1963.

Por 18 anos, trabalhou no ramo em empresas sediadas na capital paulista.

Em 1986, quando a empresa fundada por seu avô atravessava uma crise de sucessão, Liliana resolveu dar as cartas na mesa.

Naquele ano, ela ingressou na Lupo como diretora e, em 1999, assumiu a presidência.

“Até então não passava pela minha cabeça ou de qualquer outra pessoa da família assumir um cargo de destaque na empresa”, conta.

Além da disputa pela presidência da Lupo, o Brasil enfrentava um período econômico conturbado no fim dos anos 80.

Com pulso forte, Liliana implantou uma série de mudanças.

Demitiu pessoas.

Eliminou produtos do catálogo.

A estratégia deu certo. A Lupo saiu do vermelho e, em 1994, chegou ao varejo.

Hoje, já são quase 200 lojas espalhadas pelo Brasil.

“Eu pedi aos acionistas um ano para colocar a empresa em ordem”, recorda Liliana, cuja empresa teve receita operacional de R$ 573 milhões em 2010. “Esse 'ano' já dura mais de uma década.”

O reconhecimento do trabalho de Liliana transborda os limites da Lupo.

Em 2010, ela foi eleita uma das dez executivas mais influentes do país pelo jornal Valor Econômico, referência na cobertura jornalística nacional. Também foi eleita líder 2010 no setor de têxtil, couro, calçados e confecções pelo Fórum de Líderes Empresariais.

Luta pela igualdade no mercado de trabalho

Foram longas jornadas como operária que motivaram a brasileira Nelsa Nespolo, 47 anos, a perseguir um modelo de liderança mais humano e democrático.

Atual diretora da Secretaria de Economia Solidária e Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sesampe) do governo do Rio Grande do Sul, no Brasil, aos 18 anos Nelsa já era presidente nacional da Juventude Operária Católica.

Em 1988, quando voltou a trabalhar em fábricas na cidade de Porto Alegre, sua luta garantiu uma série de conquistas às trabalhadoras, como a equiparação de salários entre os gêneros.

Mas Nelsa pagou caro pelos direitos que defendia.

“As pessoas eram proibidas de conversar comigo. Aquelas que persistiam eram demitidas, uma a uma”, recorda. “Quando a punição recai sobre você, é a sua ideologia que está em xeque. Mas quando recai sobre os outros, o peso é muito maior.”

Quando a empresa a demitiu, em 1993, Nelsa decidiu que era a hora de conciliar direitos trabalhistas com realização profissional.

Começou trabalhando em casa, como costureira. Em 1996, conseguiu mobilizar outras trabalhadoras autônomas da Vila Nossa Senhora Aparecida, onde reside até hoje.

Foi assim que surgiu a Cooperativa de Costureiras Unidas Venceremos (Univens), que hoje congrega 28 costureiras da comunidade, com renda mensal de R$ 800,00 a R$ 1.500.

Em 2005, a Univens foi além e teceu a Justa Trama – uma ampla cadeia de cooperação no setor têxtil, que vai desde o plantio do algodão até a confecção das peças, com 700 trabalhadores em quatro estados brasileiros.

O que Nelsa ainda quer conquistar?

Como diretora de Economia Solidária do governo gaúcho, pretende replicar esse modelo de gestão em diferentes setores da economia.

Iniciativa global para ampliar representação feminina

Rebecca Reichmann Tavares, representante do Unifem Brasil e Cone Sul/ONU Mulheres, defende a intensificação da disseminação dos Princípios de Empoderamento das Mulheres: Igualdade Significa Negócios.

Iniciativa da ONU Mulheres e do Pacto Global, os Princípios de Empoderamento das Mulheres terão reunião de aniversário de um ano de 9 a 10 de março em Nova York, nos Estados Unidos.

Das empresas que já aderiram à iniciativa, com o intuito de ampliar a liderança feminina, 26% são espanholas; 23%, brasileiras, e 13%, japonesas.

“Estudos apontam que precisamos buscar uma participação [das mulheres] em pelo menos 30% dos mais altos cargos, tanto na iniciativa pública como privada”, diz Rebecca. “Só assim, de fato, podemos esperar uma modificação do clima e da cultura organizacional.”

Line Bareiro, advogada e cientista política paraguaia, é parte do time de analistas do Comitê das Nações Unidas sobre a Eliminação da Discriminação contra Mulheres (CEDAW).

Line, 60 anos, atua há 35 na defesa da igualdade de gêneros no Paraguai. No CEDAW, ela trabalha juntamente com 23 analistas na supervisão da aplicação das diretrizes da convenção nos países que as ratificaram.

“Todo mundo tem que fazer sua parte para acabar com a discriminação e construir igualdade”, diz Line. “Os Estados devem garantir os direitos que eles consagram, e as mulheres devem continuar a construir um mundo com mais igualdade e liberdade. Nós [mulheres] devemos nos sentir felizes, pois tenho certeza de que nós vamos conseguir, já que mudamos o mundo ao longo dos últimos 35 anos.”

A ampliação da presença feminina na política pode acelerar essas mudanças, diz Rebecca.

“Isso faz com que, no imaginário coletivo, a figura de uma mulher no comando passe a ser encarada de forma mais natural”, completa. “É fundamental que os jovens tenham essa visão do sexo feminino no poder.”

Outro fator de promoção de mais igualdade entre os gêneros no futuro próximo é o aumento nos níveis educacionais das mulheres na região, diz a socióloga argentina María Teresa Carballo, 60 anos.

María Teresa, que é diretora para a América Latina da Kantar, uma empresa mundial de consultoria e pesquisa de opinião pública, foi presidente e CEO do Gallup Argentina de 1979 a 2002. Também foi a primeira mulher a assumir a diretoria mundial de pesquisa de opinião da TNS, uma das líderes mundiais no setor, de 2003 a 2009.

“A tecnologia facilita que se trabalhe fora do escritório, facilitando também a inserção das mulheres no mercado de trabalho”, diz María Teresa. “Mas, nesse quesito, ainda temos um longo caminho a percorrer na América Latina. Há mais [igualdade de gênero] na retórica do que na realidade [na região].”

Estudos mostram avanços e desafios

A desigualdade de gênero na América Latina vem diminuindo nos últimos 15 anos, aponta o estudo “Igualdade de Gênero: Participação, Autonomia e Empoderamento das Mulheres”, divulgado pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) em 2010.

Em 2008, 32% das mulheres em zonas urbanas não tinham renda própria, contra 10% dos homens. Em 1999, o abismo era ainda maior: 39,3% das mulheres contra 12,5% dos homens.

Mas é nas zonas rurais que há mais disparidade: em 2008, 44% da população feminina não tinha renda própria, contra 14% da masculina.

Nas zonas urbanas da América Latina, o desemprego também faz mais vítimas entre as mulheres.

Na Costa Rica, 16% estão desempregadas, contra 11% dos homens. Entre as argentinas, 13,4% não têm emprego, contra 8,2% da população masculina. Estão fora do mercado de trabalho 10,5% das brasileiras, contra 5,9% dos homens. No Uruguai, as taxas são de 10,4% para as mulheres e 5,7% para os homens.

Diferenças de gênero também incidem sobre o número de horas de trabalho e a remuneração, aponta a CEPAL.

Em 2008, na Colômbia, o tempo total de trabalho (remunerado e doméstico não remunerado) semanal das mulheres era de 103,2 horas – quase 20 horas a mais do que o dos colombianos que, naquele ano, dedicaram 83,4 horas semanais ao trabalho.

No Equador, em 2007, as mulheres trabalharam, em média, 107, 5 horas semanais, e os homens, 87, 2.

Índice de Desigualdade de Gêneros atinge 96% na América Latina

Iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) confirma as disparidades apontadas pela CEPAL.

O Índice de Desigualdade de Gêneros (IDG) do RDH mostra as diferenças de conquistas entre os gêneros nas áreas de saúde reprodutiva (mortalidade materna e fertilidade adolescente), capacitação (representação parlamentar e nível educacional) e mercado de trabalho (participação na força de trabalho).

O índice vai de zero (nenhuma desigualdade nas dimensões incluídas) a um (desigualdade total).

O IDG médio mundial é de 0,56, mas, na América Latina, chega a 0,96. A saúde reprodutiva é o fator que mais pesa na desiguladade de gênero medida pelo índice (96%), seguida pela capacitação (14%) e mercado de trabalho (4%).

Os países da região que mais de destacam em termos de empoderamento feminino, conforme o IDG, são Argentina e Costa Rica.

As duas nações têm mulheres na presidência – Cristina Fernández de Kirchner na Argentina e Laura Chinchilla na Costa Rica – e representação parlamentar feminina de 40% e 37%, respectivamente.

O Brasil, liderado por Dilma Rousseff desde 1° de janeiro de 2011, ainda está longe de exibir índices similares.

Com a minirreforma eleitoral (Lei 12.034/09), o Brasil adotou a chamada “lei de cotas para mulheres”, que prevê que cada partido ou coligação preencha o mínimo de 30% e o máximo de 70% para candidaturas de cada sexo.

Ainda assim, com apenas 9,4% das cadeiras parlamentares ocupadas por mulheres, a maior nação sul-americana ocupa a 127ª posição na categoria capacitação do IDG.

Argentina, Equador e Peru têm 30% de participação feminina nas estruturas dos seus governos, diz a CEPAL.

É na área de ensino que o Brasil se destaca. A proporção da população com 25 anos ou mais que completaram a escola secundária mostra que as brasileiras estão na frente: 48,8% das mulheres, contra 46,3% dos homens, conforme o IDG.

Clique aqui para conferir o calendário de eventos em comemoração ao Dia Internacional da Mulher.

Cristine Pires colaborou de Porto Alegre, Brasil; Danielle Melo, do Rio de Janeiro, Brasil; Ezequiel Vinacour, de Buenos Aires, Argentina, e Marta Escurra, de Asunción, Paraguai.

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5 comentários

  1. CAROLINE 10/25/2011

    ACHO QUE Não pode aver diferença pois somos iguais.

  2. mario 04/04/2011

    Pesquisa

  3. DG 03/09/2011

    Ótimo artigo, muito informativo e bem escrito.

  4. LUCINDA 03/09/2011

    ESSE É UM EXCELENTE ARTIGO QUE RELATA A QUESTÃO DE IGUALDADE DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA.. É MUITO INTERESSANTE SABER COMO AS MULHERES ESTÃO IMPACTANDO CARGOS NO GOVERNO.

  5. Naya santos 03/09/2011

    Muito bem!

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