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2011-06-21

Costa Rica: ONGs tentam conter superlotação carcerária

Por Mario Garita para Infosurhoy.com – 21/06/2011

Obras del Espíritu Santo tenta prevenir que crianças caiam no crime.

TAMANHO DO TEXTO
Mais de 36 mil crianças participam de programas oferecidos pela ONG Obras del Espíritu Santo (OES), que trabalha no país inteiro para prevenir a criminalidade juvenil. (Mario Garita for Infosurhoy.com)

Mais de 36 mil crianças participam de programas oferecidos pela ONG Obras del Espíritu Santo (OES), que trabalha no país inteiro para prevenir a criminalidade juvenil. (Mario Garita for Infosurhoy.com)

SAN JOSÉ, Costa Rica – Raúl, de 12 nos, não tem onde morar.

Não sabe por que os pais estão presos.

Seu irmão Jeffrey, 15, é traficante.

Mas Raúl não quer trilhar o caminho de sua família.

O menino está entre as 36 mil crianças que participam de programas oferecidos pela ONG Obras del Espíritu Santo (OES), que trabalha no país inteiro para evitar a criminalidade juvenil. A OES também oferece terapia para ex-condenados, para prevenir seu retorno à prisão.

“Agimos para evitar que os jovens se envolvam em atividades criminosas”, explica a psicóloga aposentada Daina Underwood, 67 anos, que atua como voluntária na OES. “Nosso objetivo é o desenvolvimento pessoal amplo dessas crianças.”

A abordagem da OES, que tenta evitar que a pobreza leve os jovens à criminalidade, é dotá-los de autoconfiança para melhorar sua situação sem infringir a lei.

“Não me limito a dar-lhes apenas comida e assistência à saúde”, acrescenta Daina. “Eu também lhes dou os valores básicos necessários para que possam tomar as decisões certas na vida.”

O trabalho da OES não poderia ser mais oportuno na Costa Rica, país centro-americano com 4,5 milhões de habitantes.

O sistema carcerário costarriquenho enfrenta hoje uma grave superlotação. Em março de 2011, havia 11.135 condenados em 41 presídios no país, segundo a Agência de Adaptação Social, órgão do Ministério da Justiça encarregado do sistema penitenciário.

“Os presídios costarriquenhos têm, no momento, densidade populacional de 130%, 10 pontos acima do que se considera ‘superpopulação crítica’, pelos critérios internacionais”, informou Elías Carranza, diretor da sucursal local do Instituto Latino Americano das Nações Unidas para a Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente (Ilanud),

Para Carranza, o sistema carcerário costariquenho é vítima de sua própria eficiência.

“O número de crimes aumentou e a sociedade quer ver mais infratores na prisão”, afirmou. “A Justiça costarriquenha respondeu eficientemente e prendeu tantas pessoas que, hoje, a Costa Rica tem um dos maiores índices de aprisionamento da América Latina.”

Prisioneiros aprendem arte

A Asociación Persona – Mentes en Libertad e sua diretora, a escritora e ilustradora Haru Wells, deram início ao projeto artístico “Al Margen” ("À Margem") em 1994, no presídio de La Reforma, província de Alajuela, 23 km a noroeste de San José.

O programa ensina os prisioneiros a usar desenhos e pinturas como meio de expressão, explica Haru.

“Saber que jovens que foram encarcerados tiveram sucesso em sua reinserção na sociedade depois de participar de nossas oficinas em presídios costarriquenhos é motivo de orgulho para nós”, celebra Haru.

Segundo o ex-presidiário Jorge Calderón, de 39 anos, que participou do "À Margem" quando cumpria pena de 15 anos por roubo, tráfico de drogas e resistência à prisão, o programa funciona.

“Fiz parte de um grupo de pintura que não pretendia nos transformar em pintores, mas nos libertar dos fantasmas do passado, colocá-los no papel e aprender a viver com eles”, conta Calderón, que usou as habilidades que desenvolveu para arranjar trabalho em uma empresa do setor audiovisual. “Não é para os adultos que devemos entregar ferramentas para realizar mudanças; precisamos dá-las para as crianças, para que elas nunca voltem à situação que as mandou para a prisão”, reflete.

E acrescenta: “Tentar tirar as pessoas da cadeia não produz nenhum benefício. O que é preciso evitar, que as pessoas sejam presas, o que é diferente.”

O órgão responsável pelos programas terapêuticos em presídios juvenis é a Comissão Nacional de Melhora da Administração da Justiça (CONAMAJ).

“Perguntei a um menino se ele achava que o que tinha feito era errado, e ele respondeu que não”, conta Sara Castillo, diretora executiva da CONAMAJ. “Para ele, apontar uma arma para uma senhora e furtar seu telefone celular não era errado; era algo normal em seu ambiente. Ele disse que não pretendia atirar, que só queria assustá-la. Estamos trabalhando com ele e outros meninos, para ajudá-los a entender que o que fizeram não está certo.”

Enquanto isso, Raúl tem esperança de um futuro muito melhor.

“Quero ser arquiteto e construir uma casa para todos os meus amigos”, diz.

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