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2011-09-27

Rio de Janeiro: Cidade de Deus tem banco comunitário

Por Nelza Oliveira para Infosurhoy.com—27/09/2011

Iniciativa deve fortalecer negócios locais ao conceder incentivos a compras e investimentos na própria comunidade.

TAMANHO DO TEXTO
Geralda Maria de Jesus, 82, cuja imagem ilustra a nota de 1 CDD do Banco Comunitário de Cidade de Deus: “Estou feliz porque muita coisa está melhorando aqui.” (Renzo Gostoli/Austral Foto para Infosurhoy.com)

Geralda Maria de Jesus, 82, cuja imagem ilustra a nota de 1 CDD do Banco Comunitário de Cidade de Deus: “Estou feliz porque muita coisa está melhorando aqui.” (Renzo Gostoli/Austral Foto para Infosurhoy.com)

RIO DE JANEIRO, Brasil – Os tempos são outros na Cidade de Deus, a comunidade da Zona Oeste do Rio que ficou famosa internacionalmente devido à violência retratada no filme brasileiro homônimo do diretor Fernando Meirelles.

Segunda favela a receber uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), em fevereiro de 2009, a área foi escolhida para instalação do primeiro banco comunitário da capital fluminense, inaugurado em 15 de setembro.

O banco vai operar com moeda própria – a CDD. Quem utilizar a CDD ganha até 10% de desconto nas compras.

A ideia é incrementar os negócios na comunidade e, consequentemente, gerar mais renda, trabalho e empregos.

“A riqueza produzida aqui acaba escoando para outros bairros”, explica Marcelo Henrique da Costa, secretário municipal de Desenvolvimento Econômico Solidário (Sedes). “O empreendimento vai incentivar que os moradores gastem dentro do próprio território.”

A iniciativa integra o projeto Rio Ecosol, da Sedes, que promove princípios e valores da economia solidária em comunidades de baixa renda, com recursos do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), do Ministério da Justiça.

O banco conta ainda com parceria do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e do Instituto Palmas, responsável pela criação, em 1998, da primeira instituição bancária comunitária do país, em Fortaleza (CE).

A nova moeda da Cidade de Deus tem cinco cédulas com valores de 0,50 CDD, 1 CDD, 2 CDDs, 5 CDDs, 10 CDDs, indexados ao real, a moeda oficial do país. As notas são ilustradas com fotos de cidadãos notáveis da comunidade, escolhidas pelos moradores.

“O banco vai trazer muitos benefícios para a nossa comunidade”, diz Geralda Maria de Jesus, 82, cuja imagem ilustra a nota de 1 CDD. “Estou feliz porque muita coisa está melhorando aqui.”

Cidadãos ilustres homenageados

Removida do Morro do São Carlos, no Catumbi, Zona Norte do Rio, Geralda praticamente inaugurou a Cidade de Deus, aonde chegou em 1965, então com 36 anos e oito filhos.

Há mais de 20 anos, ela e dois de seus filhos, Ana Regina, 50, e Nilo Sergio, 39, distribuem, por conta própria, alimentos para gestantes e crianças carentes da comunidade.

Já Benta Neves do Nascimento, 78, cuja imagem ilustra a cédula de 5 CDDs, está há 45 anos na comunidade. Foi ela quem criou a ONG Comitê da Terceira Idade da Cidade de Deus, que já formou centenas de pessoas em cursos de corte e costura, artesanato e bordados.

“Estou toda prosa. Imagine eu, nessa idade, ficar passando de mão em mão”, brinca Dona Benta.

Os outros dois homenageados já são falecidos: João Batista (2 CDDs), e o padre holandês Julio Grooten (10 CDDs).

João Batista, falecido em janeiro aos 78 anos, chegou à Cidade de Deus em 1965, onde criou a Associação Beneficente Obra Social Estrela da Paz (Abosep). A ONG assiste crianças e adolescentes com desnutrição e oferece cursos profissionalizantes para jovens.

Em 1969, então recém-chegado ao Brasil, padre Grooten assumiu o trabalho pastoral na comunidade. Ele montou a primeira creche da área e ergueu a Paróquia da Matriz, onde ministrava aulas de reforço escolar, promovia colônia de férias e oferecia cursos de reciclagem e de artesanato. Padre Grooten faleceu em 2003, aos 77 anos.

A nota de 0,50 CDD é a única cuja ilustração é a fotografia de um lugar – a Casa do Barão. As terras pertenceram a Francisco Pinto da Fonseca Telles, o Barão da Taquara, reconhecido como benfeitor da Zona Oeste.

Para evitar falsificação, a fabricação das notas de CDD utiliza o mesmo sistema de produção de cédulas adotados pela maioria dos países, recomendado pela Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol) para impressão de documentos de segurança.

O novo banco também oferece aos empreendedores locais acesso a linhas de crédito – em reais – de R$ 150 a R$ 5.000. A vantagem é que os juros são mais baixos do que os praticados pelo sistema bancário tradicional: de 1,5% a 3%, contra 5,6% no mercado convencional, de acordo com a Fundação Procon-SP.

Aos consumidores em geral, o banco disponibiliza empréstimos de até 80 CDDs e não cobra juros.

Outro diferencial é que as linhas de crédito são concedidas mesmo que o solicitante esteja com alguma restrição junto aos órgãos de proteção ao crédito. Para conseguir a aprovação do pedido pelo banco comunitário, porém, o morador terá que apresentar justificativa convincente para a pendência no histórico de crédito.

Os moradores podem trocar reais por CDDs na sede do banco comunitário ou optar por receber parte dos seus salários na nova moeda.

O comerciante que desejar receber a nova moeda em seu estabelecimento deverá se cadastrar.

“Temos mais de 100 cadastrados”, afirma o secretário Marcelo Henrique da Costa.

Uma das cadastradas é Ângela Baptista de Souza, proprietária de um pequeno ponto de venda de comida e bebida.

“Nossa comunidade não é pobre como dizem ou tentam mostrar”, diz Ângela. “Só que o pessoal sai e vai gastar no shopping fora daqui.”

Os 36.515 moradores da Cidade de Deus, segundo dados de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), também poderão sacar reais, pagar contas e receber benefícios sociais em um terminal da Caixa Econômica Federal instalado na agência do Banco Comunitário.

A administração do banco foi entregue, por eleição, à Agência Cidade de Deus de Desenvolvimento Local (ADL), formada por representantes da comunidade.

O Banco Comunitário da Cidade de Deus é o 63º do Brasil e o segundo do estado do Rio, segundo a Sedes. A primeira iniciativa do gênero no Rio entrou em operação em 2010 na cidade de Silva Jardim, onde a moeda comunitária é o Capivari.

A próxima unidade será instalada no Complexo do Alemão, conforme antecipou o prefeito do Rio, Eduardo Paes, durante o lançamento do Banco Comunitário da Cidade de Deus, em 15 de setembro.

“Estávamos cansados de ser marginalizados, queríamos ser algo diferente”, diz Ana Lúcia Pereira Serafim, atual presidente da ADL. “Isso está se concretizando.”

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1 Comentário

  1. KingofthePaupers 01/08/2013

    O novo banco também oferece acesso a suas linhas de crédito – em reais – de R$ 150 (US$ 83) a R$ 5.000 (US$ 2.776) a empresários locais e oferece taxas de juros muito menores (1,5% a 3%, contra 5,6%) do que os bancos tradicionais, de acordo com a Fundação Procon-SP. Empréstimos sem juros de até 80-CDDs também são oferecidos aos clientes do banco. JCT: é uma boa fonte de nova moeda, mas como aqueles que pegam emprestado 10 CDDs podem pagar juros quando apenas 10 CDDS foram impressos? Melhor procurarem uma taxa de serviço dos créditos criados do que demandar mais créditos do que foram criados. Mas um passo na direção certa.

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