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2012-03-06

Mestre de capoeira dá rasteira nas drogas

Por Leilane Marinho para Infosurhoy.com — 06/03/2012

Em rodas no Tocantins, Mestre Gamela ensina o esporte e dá conselhos para manter crianças e jovens de comunidades carentes longe da criminalidade.

TAMANHO DO TEXTO
Alunos do assentamento de Pinheirópolis se alongam antes de começar a praticar os movimentos da capoeira. (Leilane Marinho para Infosurhoy.com)

Alunos do assentamento de Pinheirópolis se alongam antes de começar a praticar os movimentos da capoeira. (Leilane Marinho para Infosurhoy.com)

PORTO NACIONAL, Brasil – Na roda de capoeira, um menino gira o corpo no ar enquanto o mestre canta: “Vai lá menino/Mostra o que o mestre ensinou/Mostra que arrancaram a planta/Mas a semente brotou”.

Cerca de 200 crianças e jovens fazem parte do Grupo de Capoeira Raízes, na cidade histórica de Porto Nacional, no estado do Tocantins, Região Norte do Brasil.

A maioria deles mora em bairros pobres, que sofrem problemas sociais como prostituição, evasão escolar e tráfico de drogas.

“Passei minha infância num bairro conhecido como Buracão [São Judas Tadeu], onde quase todos os meus colegas se perderam nas drogas e na criminalidade”, diz Alcione Santana Rodrigues, mais conhecido como Mestre Gamela, de 41 anos.

Esporte vem de dança africana

Filho de pai pedreiro e mãe lavadeira, Mestre Gamela é o caçula de 12 irmãos. Ele ganha a vida como serralheiro. Mas sua paixão é a capoeira, esporte que pratica há 23 anos, sendo 9 como mestre. Em 2003, Mestre Gamela criou o Grupo Raízes.

A música, as palmas ritmadas e instrumentos musicais como berimbau, pandeiro e atabaque formam o pano de fundo do esporte. Sentados em círculo, os membros do grupo esperam a vez de entrar na roda enquanto dois participantes trocam golpes cheios de ginga. Segundo historiadores, os movimentos tiveram origem numa dança africana chamada n’golo ou dança da zebra.

Os primeiros documentos que citam o termo capoeira datam do fim do século XVIII e início do XIX no Brasil. São registros de ocorrências policiais envolvendo escravos em brigas e desordens.

Criada por escravos africanos, a capoeira era considerada perigosa e chegou a ser proibida em todo o Brasil, mas ganhou prestígio e hoje tem seguidores em mais de 100 países.

Papel social no Tocantins

Mistura de dança e luta, ela é conhecida no mundo todo como uma arte marcial brasileira e vem desempenhando um papel social no Brasil. Mais especificamente na roda de Mestre Gamela.

“Mais do que levar o esporte para comunidades carentes, eu criei o Raízes para ensinar a essas crianças uma filosofia de vida baseada no respeito a si e ao próximo”, diz Mestre Gamela.

Em novembro de 2011, o Raízes finalmente ganhou uma sede. O local escolhido foi o mesmo bairro em que Mestre Gamela cresceu, o Buracão, ainda hoje tomado pelo tráfico de drogas.

A roda de capoeira reúne diariamente alunos de toda a cidade para praticar o esporte e discutir problemas sociais. Crianças de 5 a 14 anos não pagam para participar. Os demais contribuem com R$ 20 por mês.

Vídeo de Leilane Marinho para Infosurhoy.com

Após os treinos, a roda se transforma.

Os alunos cessam as palmas e a cantoria e fazem silêncio para escutar o mestre, que fala sobre boa conduta e responsabilidade.

Mais do que um professor de capoeira, Mestre Gamela se afirma como uma figura paternal dentro e fora da roda. Aos poucos, ele conquista os alunos e tenta mudar a realidade local.

Ginga com responsabilidade

O foco de Mestre Gamela sempre foi as crianças. Os mais velhos do Grupo Raízes começaram as aulas de capoeira antes dos 10 anos de idade.

“É um esporte que chama muito a atenção da molecada, principalmente pela musicalidade e alegria. Toda criança que vê uma roda de capoeira quer participar”, explica Mestre Gamela, lembrando que as letras das músicas têm temas variados, como a cultura negra, o cotidiano dos escravos, religiões, amores e a prória roda da capoeira.

Todos os dias, o Grupo Raízes vai até o assentamento Pinheirópolis para fazer uma roda de capoeira com cerca de 40 crianças. Suas famílias tiveram que deixar as casas após a construção da Usina Hidrelétrica Luiz Eduardo Magalhães, em 2001.

Longe do centro de Porto Nacional, a comunidade Pinheirópolis tem se tornado um terreno fértil para a capoeira. O esporte é uma das poucas opções de lazer locais, diz Mestre Gamela.

Os mais antigos do grupo ajudam Mestre Gamela com os exercícios, que vão desde alongamento a golpes conhecidos como “meia lua de compasso”, “queixada” e “benção”.

A responsabilidade dada aos mais velhos é uma jogada de mestre, literalmente.

Dedicação a tudo na vida

“Eu sempre achei o Júnior muito indisciplinado, mas o envolvimento dele com a capoeira foi tão grande que ele passou a se dedicar mais, não apenas ao esporte, mas a tudo na vida”, diz Sheila Rejane Barbosa, professora, e mãe de dois jovens que frequentam as aulas.

Os filhos de Sheila, Júnior e Jeovane Barbosa, de 14 e 16 anos respectivamente, são destaque nas rodas de capoeira e não perdem um só treino. Para Júnior, Mestre Gamela é mais do que um professor, é um grande amigo e tutor.

“Ele sempre traz boas orientações”, diz Júnior, lembrando as puxadas de orelha que já recebeu.

“Eu me preocupo com cada um desses menino”, diz Mestre Gamela, apontando para as crianças. “Quando fico sabendo de envolvimento com pessoas estranhas, faço questão de chamar para uma conversa séria, pois a grande maioria não tem uma estrutura familiar sólida.”

Morador da zona rural, o jovem Lorenço Cardoso Santana, 18, sabia o que queria quando ouviu pela primeira vez o som do berimbau: ser capoeirista.

“Eu morava longe daqui, mas não queria parar de jogar”, conta Santana.

Há três anos surgiu a oportunidade de morar com a irmã em Porto Nacional. Desde então, ele “come e respira” capoeira.

“Estudo de manhã e venho para a academia à tarde”, diz Santana. “Hoje meu trabalho é dar aulas para os meninos da comunidade. A capoeira, você pratica ensinando.”

Agora, Santana se prepara para cursar Educação Física na universidade. Assim como o Mestre Gamela, quer um dia retribuir o que recebeu.

‘Largava tudo para treinar’

O servidor público Jean Carlos da Silva, 33, treina capoeira desde os 9.

“Treinei praticamente a vida toda, mas foi num período triste que percebi o quanto a capoeira é uma ferramenta excelente na prevenção e resgate das drogas”, diz Silva, sobre a época em que era dependente químico.

Segundo Silva, mesmo durante o período de vício, o treino era prioridade.

“Eu largava tudo o que estava fazendo para treinar”, conta. “Foi quando vi a importância de os jovens deixarem as ruas para estar em outro meio social, muito mais rico.”

Há alguns anos, Silva venceu o vício. A devoção às rodas de capoeira de Mestre Gamela continua forte. A diferença é que, agora, ele não vem mais sozinho. Ao lado de Silva, na roda, estão três novos integrantes: sua mulher e os dois filhos do casal.

Enquanto toda a família bate palma e espera a vez de entrar na roda, Mestre Gamela termina a canção que lembra a história do próprio Silva e de tantos outros ali presentes: “Vai lá menino/Mostra o que o mestre ensinou/Mostra que arrancaram a planta/Mas a semente brotou/E se for bem cultivada/Dará bom fruto e bela flor”.

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8 comentários

  1. Gilma Alves 03/25/2013

    Paabéns, Mestre Gamela pela dedicação a Capoeira e a Leilane Marinho por divulgar esse tabalho!!!

  2. wesley 11/21/2012

    eu aluno bizonho parei por um tenpo mas retonei graças a deus e valeu a pena fomos bem recebidos eu e meu filho pelo mestre gamela parabens a todos do grupo raises......

  3. junior 06/16/2012

    agradeço muito ao mestre gamela!!! pois ele é um grande amigo e tutor!! está sendo muito boa a capoeira, valeu mestre por ter nos oferecido essa oportunidade!

  4. LeonardoStrini 06/07/2012

    Parabéns ao Mestre Gamela e a todos que lutam pela diminuição das drogas no meio social, a Capoeira tem papel importantíssimo nesse Processo. Axé!

  5. patricia messias 03/27/2012

    muito bonito o trabalho,parabéns ao mestre pela grande dedicação!se todos usassem a capoeira como educação social,muitas outras crianças viveriam melhor.

  6. Cleidson Dias - Mamute 03/19/2012

    Parabéns pela matéria, excelente....

  7. Contra Mestre Penugem 03/14/2012

    Parabéns Pela riquíssima matéria. a capoeira agradece.

  8. Ricardo Apolinário 03/13/2012

    Parabéns Mestre, não é nada além do que o senhor plantou ao longo da vida. Ainda virão mais frutos. Obrigado por tudo. Sua vitória é nossa recompensa maior.

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